06/08/2010
Lula e Dilma
Quem acha que a candidata não passa de 40% esquece que o presidente a pôs nesse patamar somente falando dela, sem olhar nos olhos do eleitor e pedir seu voto
Uma das coisas engraçadas destas eleições é observar a mudança nos cálculos da oposição sobre o “poder de transferência” de Lula. Já faz mais de um ano que eles são feitos e refeitos, sempre corrigindo para cima a estimativa anterior. Agora, às vésperas do começo da última etapa, com as campanhas chegando à televisão, eles voltaram a mudar, outra vez em sentido ascendente.
Ainda em 2009, não havia quem, nos partidos de oposição, achasse que a aposta de Lula ao indicar Dilma Rousseff daria certo. Além do que entendiam ser suas dificuldades próprias – inexperiência eleitoral, falta de carisma, pouca visibilidade de seu papel no governo (para ficar apenas com as mais citadas) – haveria um limite à transferência de votos de Lula para ela.
Ninguém jamais discutiu que Dilma Rousseff precisaria desses votos. Uma candidata nova, que nunca disputara um cargo importante, sem qualquer notoriedade fora da área técnica do governo, só por milagre alcançaria votação sequer perceptível em uma eleição nacional.
Veja-se, para ilustrar, o que aconteceu com Aécio Neves na pré-campanha. Apesar de ser o governador reeleito (e bem avaliado) do segundo maior colégio eleitoral do País, mal alcançava 20% quando teve de desistir, exatamente por lhe faltar maior volume de intenções de voto.
Mesmo sendo Dilma a candidata do PT, de longe o partido com o maior número de filiados e simpatizantes, -suas perspectivas continuavam baixas. O PT, sozinho, seria insuficiente para elegê-la.
Ou seja, para se tornar competitiva diante de José Serra e poder derrotá-lo, Dilma precisava de Lula. Ela sabia disso, ele também, assim como a torcida do Flamengo (e a de todos os seus adversários).
Mas quantos seriam os votos que ele conseguiria repassar? Apesar de sua popularidade e simpatia, não haveria um limite a essa transferência?
Durante o ano passado, quem torcia por Serra, seja no meio político, seja na sociedade civil, escolheu a taxa de 20% como o teto onde a transferência de Lula poderia ir. Até a alcançar, Dilma cresceria sem problemas. Em lá chegando, empacaria. Lula a poria no patamar de 20%, mas, para ultrapassá-lo, a bola estaria com ela. Sozinha, sem bagagem política, seria presa fácil do candidato do PSDB.
Essa proporção não foi inventada, pois se baseava nas respostas de entrevistados nas pesquisas a perguntas sobre sua propensão a votar em “quem quer que fosse o candidato indicado por Lula”. Embora variasse um pouco, conforme o momento e a pesquisa era mesmo isso que diziam as pessoas.
O equívoco foi, no entanto, confundir piso com teto. Os 20% não eram o máximo, mas o mínimo que Lula, sem fazer mais nada, daria a ela.
Ela os superou ainda em outubro de 2009, jogando fora os prognósticos peremptórios que ouvíamos até de especialistas conhecidos. Fixaram, então, uma nova barreira em 30%, e garantiram que, deles, ela não passaria. Coisa que fez em março e continuou subindo. A essa altura, indo cada vez mais além do segmento do eleitorado que votaria de olhos fechados em quem Lula indicasse.
Na última semana de julho, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso reviu as contas e fixou um novo limite. Para ele, depois de “Lula ter transferido para sua candidata 35% a 40% dos votos”, alcançou “um teto”. Agora, finalmente, segundo o ex-presidente, Dilma Rousseff pararia de crescer.
Quem garante isso? De onde vem a convicção, considerando que ela, nos 40% atuais, já está a um passo de ganhar no primeiro turno?
Quem acha que ela não cresce mais deve imaginar que a presença diária de Lula na televisão, depois do dia 17 próximo, não terá qualquer efeito. Que os 85% que o aprovam, os 75% que acham ótimo ou bom seu governo, os muitos que gostam dele e o admiram ficarão indiferentes à sua presença. Que se decepcionarão todos aqueles que só esperam conhecer um pouco a candidata que ele apoia.
Quem acha que ela não passa de 40% esquece que Lula a pôs nesse patamar quase que somente falando nela, sem olhar nos olhos do eleitor e pedir seu voto, salvo a meia dúzia de vezes em que usou o tempo de propaganda de seu partido.
Quem acha que ela não passa de 40% pode se preparar. Vai, provavelmente, ter uma surpresa.
domingo, 19 de setembro de 2010
As pesquisas públicas
04/08/2010
As pesquisas públicas
De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
Quando escrevem sobre pesquisas, alguns jornalistas mostram não conhecer bem o papel que elas têm hoje nas campanhas políticas. Curioso é que mesmo profissionais tarimbados costumam revelar esse desconhecimento e não apenas os jovens repórteres no início de carreira.
Em momentos iguais a este, de aproximação das eleições, veem-se exemplos disso a toda hora. Como saem pesquisas com muita frequência, a imprensa está sempre cheia de matérias que as citam, nas quais se percebe a desinformação de seus autores sobre o que acontece no quartel-general das candidaturas.
Não são todas as campanhas que conseguem, mas todas que podem montam sistemas de acompanhamento dos humores do eleitorado através de pesquisas. À medida que aumenta a importância do cargo em disputa e sobe a capacidade de arrecadação, maior é o arsenal de pesquisas próprias que mandam realizar, para uso de coordenadores e estrategistas.
Faz tempo que as pesquisas quantitativas de intenção de voto se tornaram apenas o pedaço visível desses projetos, pois eles envolvem inúmeros outros levantamentos cujos resultados não são divulgados ou comentados. Ou seja: o que se vê é somente a ponta de um iceberg, cuja parte maior permanece submersa.
No mundo real das campanhas, grande destaque é dado às pesquisas qualitativas, indispensáveis à formulação de estratégias de comunicação. São elas que permitem entender as razões e motivos dos eleitores, por que preferem um candidato em detrimento de outros, o que esperam da eleição, o que não sabem e gostariam de saber dos candidatos. Os marqueteiros costumam olhá-las com mais interesse que os resultados das quantitativas, cujo objetivo é medir quantos pensam de uma maneira ou de outra, bem como identificar que variações existem entre os segmentos (socioeconômicos ou geográficos) do eleitorado.
As campanhas de Serra e de Dilma estão fazendo pesquisas desde muito antes do lançamento oficial das candidaturas. Seus partidos têm o hábito de pesquisar, possuem institutos que tradicionalmente lhes prestam serviços e contam com especialistas, internos e de fora de seus quadros, para assessorá-los em sua análise. A esta altura do processo eleitoral, já fizeram alguns (muitos) milhares de entrevistas e (várias) dezenas de discussões em grupo, a técnica qualitativa mais empregada. Ambos têm em mãos longas séries de pesquisas em todo o país, estado por estado, sempre usando questionários mais elaborados e detalhados que aqueles que se veem na imprensa. De agora em diante, na reta final, essa massa de dados vai aumentar exponencialmente.
Além da parafernália de pesquisas próprias, as duas campanhas têm acesso a dezenas de outras, feitas por correligionários e aliados nos estados, por entidades de classe e empresas do setor privado. Não deve haver um só dia em que não chegue aos comitês uma pesquisa nova.
Faz algum sentido imaginar que campanhas assim organizadas e tão bem abastecidas tenham que esperar a divulgação de pesquisas públicas para tomar qualquer decisão relevante? Que as equipes de Serra e Dilma fiquem roendo as unhas na frente da televisão para saber quem está na frente e quem atrás? Que só resolvam o que vão fazer depois de ler no jornal o que disse uma pesquisa?
Pelo que escrevem alguns jornalistas, pareceria que sim. Seus textos dizem coisas como “antes da pesquisa do Ibope, Serra ia fazer....”, “agora com o Datafolha, Dilma decidiu....”, o que equivale a supor que os candidatos foram inteirados de algo pela imprensa. Que o vasto investimento de suas campanhas em pesquisas próprias é inútil, pois o que contaria seriam as pesquisas hípicas (as que mostram quais cavalinhos estão na frente) que todos conhecem.
Nas disputas eleitorais, as pesquisas publicadas são irrelevantes como instrumentos de informação estratégica, pois as campanhas grandes (e seus apoiadores) sabem muitíssimo mais que aquilo que chega à imprensa e ao cidadão comum. O que não quer dizer que sejam irrelevantes na guerra da comunicação, pois estar publicamente na frente é melhor que estar atrás e isso pode trazer diversas vantagens a quem lidera.
As pesquisas públicas
De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
Quando escrevem sobre pesquisas, alguns jornalistas mostram não conhecer bem o papel que elas têm hoje nas campanhas políticas. Curioso é que mesmo profissionais tarimbados costumam revelar esse desconhecimento e não apenas os jovens repórteres no início de carreira.
Em momentos iguais a este, de aproximação das eleições, veem-se exemplos disso a toda hora. Como saem pesquisas com muita frequência, a imprensa está sempre cheia de matérias que as citam, nas quais se percebe a desinformação de seus autores sobre o que acontece no quartel-general das candidaturas.
Não são todas as campanhas que conseguem, mas todas que podem montam sistemas de acompanhamento dos humores do eleitorado através de pesquisas. À medida que aumenta a importância do cargo em disputa e sobe a capacidade de arrecadação, maior é o arsenal de pesquisas próprias que mandam realizar, para uso de coordenadores e estrategistas.
Faz tempo que as pesquisas quantitativas de intenção de voto se tornaram apenas o pedaço visível desses projetos, pois eles envolvem inúmeros outros levantamentos cujos resultados não são divulgados ou comentados. Ou seja: o que se vê é somente a ponta de um iceberg, cuja parte maior permanece submersa.
No mundo real das campanhas, grande destaque é dado às pesquisas qualitativas, indispensáveis à formulação de estratégias de comunicação. São elas que permitem entender as razões e motivos dos eleitores, por que preferem um candidato em detrimento de outros, o que esperam da eleição, o que não sabem e gostariam de saber dos candidatos. Os marqueteiros costumam olhá-las com mais interesse que os resultados das quantitativas, cujo objetivo é medir quantos pensam de uma maneira ou de outra, bem como identificar que variações existem entre os segmentos (socioeconômicos ou geográficos) do eleitorado.
As campanhas de Serra e de Dilma estão fazendo pesquisas desde muito antes do lançamento oficial das candidaturas. Seus partidos têm o hábito de pesquisar, possuem institutos que tradicionalmente lhes prestam serviços e contam com especialistas, internos e de fora de seus quadros, para assessorá-los em sua análise. A esta altura do processo eleitoral, já fizeram alguns (muitos) milhares de entrevistas e (várias) dezenas de discussões em grupo, a técnica qualitativa mais empregada. Ambos têm em mãos longas séries de pesquisas em todo o país, estado por estado, sempre usando questionários mais elaborados e detalhados que aqueles que se veem na imprensa. De agora em diante, na reta final, essa massa de dados vai aumentar exponencialmente.
Além da parafernália de pesquisas próprias, as duas campanhas têm acesso a dezenas de outras, feitas por correligionários e aliados nos estados, por entidades de classe e empresas do setor privado. Não deve haver um só dia em que não chegue aos comitês uma pesquisa nova.
Faz algum sentido imaginar que campanhas assim organizadas e tão bem abastecidas tenham que esperar a divulgação de pesquisas públicas para tomar qualquer decisão relevante? Que as equipes de Serra e Dilma fiquem roendo as unhas na frente da televisão para saber quem está na frente e quem atrás? Que só resolvam o que vão fazer depois de ler no jornal o que disse uma pesquisa?
Pelo que escrevem alguns jornalistas, pareceria que sim. Seus textos dizem coisas como “antes da pesquisa do Ibope, Serra ia fazer....”, “agora com o Datafolha, Dilma decidiu....”, o que equivale a supor que os candidatos foram inteirados de algo pela imprensa. Que o vasto investimento de suas campanhas em pesquisas próprias é inútil, pois o que contaria seriam as pesquisas hípicas (as que mostram quais cavalinhos estão na frente) que todos conhecem.
Nas disputas eleitorais, as pesquisas publicadas são irrelevantes como instrumentos de informação estratégica, pois as campanhas grandes (e seus apoiadores) sabem muitíssimo mais que aquilo que chega à imprensa e ao cidadão comum. O que não quer dizer que sejam irrelevantes na guerra da comunicação, pois estar publicamente na frente é melhor que estar atrás e isso pode trazer diversas vantagens a quem lidera.
Propaganda Eleitoral na TV
01/08/2010
Propaganda Eleitoral na TV
De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
Daqui a 15 dias, começa a última e decisiva etapa das eleições. No caso das presidenciais, as mais longas que fizemos em nossa historia. É nelas que o sistema político pensa obsessivamente há mais de dois anos (desde, pelo menos, o início de 2008), por obra e graça de Lula.
As demais eleições estão sendo das mais atrasadas de que temos memória. Na maior parte dos estados, o nível de definição dos eleitores a respeito do voto para governador é muito baixo. Para o Senado, baixíssimo. Nas proporcionais, então, nem é bom falar: mais de 95% dos eleitores têm, no máximo, apenas uma vaga noção do que farão.
Com sua mania de aguardar a “hora certa”, nossa legislação eleitoral é a principal responsável pelo que vai acontecer de 17 de agosto a 3 de outubro. Nesses últimos 45 dias, todos que ainda não sabem em quem votar para os 6 cargos em disputa (presidente, governador, dois senadores, deputado federal e estadual) terão que correr à procura de informações. Quantos conseguirão obtê-las em espaço de tempo tão curto? Quantos terão condições de conhecer adequadamente os candidatos relevantes?
É verdade que as campanhas já começaram faz quase um mês, em 6 de julho. Comícios, passeatas, carros de som, foram liberados e vêm sendo usados pelos candidatos país afora. Mas seu impacto é diminuto.
Quem o quiser avaliar basta que considere o que mudou nas pesquisas do final de junho até agora: praticamente nada. Seja nas eleições presidenciais, seja nas outras, os últimos 30 dias foram de estabilidade quase completa. Ninguém subiu, ninguém caiu, o que permite ver quão inócua é essa etapa intermediária, que vai do fim da “pré-campanha” ao início da televisão.
Se pensarmos nas restrições a que essas mídias foram submetidas, não é difícil entender por quê. No afã de responder aos anseios generalizados por moralização que vieram depois do mensalão, nossas elites fizeram mudanças perfunctórias na legislação para reduzir gastos de campanha, achando que conteriam a arrecadação irregular ao colocar obstáculos às despesas. Com isso, sumiram os artistas e animadores, e os comícios foram esvaziados. Acabaram as camisetas, que tanta gente usava. Os outdoors diminuíram de tamanho e viraram pequenas placas padronizadas. Faixas e cartazes desapareceram. Até a pintura de muros foi severamente disciplinada.
Muitas dessas limitações foram positivas, pois reduziram o assédio exorbitante dos candidatos e contribuíram para a limpeza das cidades. Mas acabaram por aumentar o que era já grande: a influência da televisão, que se tornou ainda mais preponderante.
Ou seja: é cada vez maior a proporção de eleitores que chega aos 45 dias finais com sua “cola eleitoral” quase vazia. Dos 6 nomes, sabe um, dois e olhe lá.
Para agravar as dificuldades, nossa legislação coloca mais uma barreira à sua frente. Nesses últimos dias, ou o eleitor se senta diante da televisão por intermináveis 50 minutos na hora do almoço e do jantar ou torce para ter a sorte de ver uma inserção enquanto assiste a seus programas prediletos. As campanhas chegam (finalmente) à sua casa, mas dessa maneira: 100 minutos/dia de “programas eleitorais” contra 30 de comerciais.
Esses são divididos em 5 “partes” de 6 minutos (uma para cada cargo), e são distribuídos em 4 blocos de audiência (manhã, tarde, horário nobre e noite). Fazendo as contas: Dilma e Serra terão cerca de um comercial ao dia em horário nobre por emissora (ela todo dia, ele nem sempre), Marina um por semana e os menores, provavelmente, nenhum. Nas eleições estaduais, coisas parecidas, em função do tamanho das coligações.
É isso que verá a maioria das pessoas, que não gosta do “horário eleitoral” (ou “guia”, como é chamado em algumas regiões). Estudos mostram que, quando a eleição termina, mais da metade dos eleitores não viu sequer um inteiro. Esses, os que só assistem aos comerciais, são tratados a pão e água pela legislação.
E ainda querem que o eleitor “vote consciente”.
Propaganda Eleitoral na TV
De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
Daqui a 15 dias, começa a última e decisiva etapa das eleições. No caso das presidenciais, as mais longas que fizemos em nossa historia. É nelas que o sistema político pensa obsessivamente há mais de dois anos (desde, pelo menos, o início de 2008), por obra e graça de Lula.
As demais eleições estão sendo das mais atrasadas de que temos memória. Na maior parte dos estados, o nível de definição dos eleitores a respeito do voto para governador é muito baixo. Para o Senado, baixíssimo. Nas proporcionais, então, nem é bom falar: mais de 95% dos eleitores têm, no máximo, apenas uma vaga noção do que farão.
Com sua mania de aguardar a “hora certa”, nossa legislação eleitoral é a principal responsável pelo que vai acontecer de 17 de agosto a 3 de outubro. Nesses últimos 45 dias, todos que ainda não sabem em quem votar para os 6 cargos em disputa (presidente, governador, dois senadores, deputado federal e estadual) terão que correr à procura de informações. Quantos conseguirão obtê-las em espaço de tempo tão curto? Quantos terão condições de conhecer adequadamente os candidatos relevantes?
É verdade que as campanhas já começaram faz quase um mês, em 6 de julho. Comícios, passeatas, carros de som, foram liberados e vêm sendo usados pelos candidatos país afora. Mas seu impacto é diminuto.
Quem o quiser avaliar basta que considere o que mudou nas pesquisas do final de junho até agora: praticamente nada. Seja nas eleições presidenciais, seja nas outras, os últimos 30 dias foram de estabilidade quase completa. Ninguém subiu, ninguém caiu, o que permite ver quão inócua é essa etapa intermediária, que vai do fim da “pré-campanha” ao início da televisão.
Se pensarmos nas restrições a que essas mídias foram submetidas, não é difícil entender por quê. No afã de responder aos anseios generalizados por moralização que vieram depois do mensalão, nossas elites fizeram mudanças perfunctórias na legislação para reduzir gastos de campanha, achando que conteriam a arrecadação irregular ao colocar obstáculos às despesas. Com isso, sumiram os artistas e animadores, e os comícios foram esvaziados. Acabaram as camisetas, que tanta gente usava. Os outdoors diminuíram de tamanho e viraram pequenas placas padronizadas. Faixas e cartazes desapareceram. Até a pintura de muros foi severamente disciplinada.
Muitas dessas limitações foram positivas, pois reduziram o assédio exorbitante dos candidatos e contribuíram para a limpeza das cidades. Mas acabaram por aumentar o que era já grande: a influência da televisão, que se tornou ainda mais preponderante.
Ou seja: é cada vez maior a proporção de eleitores que chega aos 45 dias finais com sua “cola eleitoral” quase vazia. Dos 6 nomes, sabe um, dois e olhe lá.
Para agravar as dificuldades, nossa legislação coloca mais uma barreira à sua frente. Nesses últimos dias, ou o eleitor se senta diante da televisão por intermináveis 50 minutos na hora do almoço e do jantar ou torce para ter a sorte de ver uma inserção enquanto assiste a seus programas prediletos. As campanhas chegam (finalmente) à sua casa, mas dessa maneira: 100 minutos/dia de “programas eleitorais” contra 30 de comerciais.
Esses são divididos em 5 “partes” de 6 minutos (uma para cada cargo), e são distribuídos em 4 blocos de audiência (manhã, tarde, horário nobre e noite). Fazendo as contas: Dilma e Serra terão cerca de um comercial ao dia em horário nobre por emissora (ela todo dia, ele nem sempre), Marina um por semana e os menores, provavelmente, nenhum. Nas eleições estaduais, coisas parecidas, em função do tamanho das coligações.
É isso que verá a maioria das pessoas, que não gosta do “horário eleitoral” (ou “guia”, como é chamado em algumas regiões). Estudos mostram que, quando a eleição termina, mais da metade dos eleitores não viu sequer um inteiro. Esses, os que só assistem aos comerciais, são tratados a pão e água pela legislação.
E ainda querem que o eleitor “vote consciente”.
Eleições sem graça
28/07/2010
Eleições sem graça
De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
Quem quiser sustentar a tese de que nossa legislação eleitoral é satisfatória terá poucos motivos. Salta aos olhos da maioria do país que ela é inconveniente e que já é mais que hora de mudá-la em profundidade.
Só por conveniência a defendem. Ninguém acha, com sinceridade, que seja boa, e, quando alguém finge admirá-la, é por puro oportunismo.
Semana passada, por exemplo, para (pela milionésima vez) criticar o que Lula faz, uma de nossas revistas semanais mais importantes disse, em editorial, que “... no Brasil de hoje, o governante se insurge de maneira histérica contra leis intrinsecamente boas, democraticamente feitas e aprovadas. A pouco mais de dois meses da votação em primeiro turno, zomba abertamente da consagrada Lei Eleitoral brasileira”.
É impressionante a quantidade de equívocos em um parágrafo tão curto. Independentemente das estocadas que querem dar em Lula, nenhuma dessas avaliações faz sentido. Embora seja um truísmo dizer foram feitas democraticamente (pois isso só não seria verdade se vivêssemos em uma ditadura), elas não são nem boas, nem aprovadas pela maioria da opinião pública. Portanto, nossa Lei Eleitoral pode ser tudo, menos “consagrada”.
São muitas as mostras de que elas são, ao contrário, más e que, por isso, insurgir-se contra elas não é histeria ou consiste em zombaria. Nossas leis eleitorais são tão ruins que fazem com que fiquemos cada dia mais distantes do que é desejável em uma cultura democrática.
Um dos maiores jornais do Rio de Janeiro trouxe, este fim de semana, reportagem sobre suas consequências nos programas humorísticos da televisão. À primeira vista, poder-se-ia dizer que é algo secundário, quase irrelevante na discussão política mais “séria”. Afinal, que significado teria o humor na vida política de uma sociedade?
Quem imaginar que pequeno (ou nenhum) incorreria em erro. O humor é um componente fundamental das relações saudáveis entre cidadãos e políticos, governos, candidatos e eleições. Rir deles é uma maneira de reduzir distâncias, de dessacralizá-los, de trazê-los para a esfera de ação das pessoas comuns. Em outras palavras, de aprofundar os valores mais básicos da democracia, igualitários e anti-hierárquicos. Não há nada mais genuinamente democrático que rir dos poderosos e suas atribulações.
Pois bem, na contra-mão de nossas antigas tradições, de sempre encontrar motivos para ironizar e brincar com os políticos e os candidatos, tão típicas da cultura brasileira, a legislação atual faz o oposto. Se depender dela, o humor está banido.
Ouvidos, os responsáveis pelos programas humorísticos de maior audiência foram unânimes. Nenhum pretende trazer as eleições para suas brincadeiras. Alguns pensam inventar personagens, para não deixar de falar nelas, nem que seja através de candidatos fictícios. Nada de graças, paródias, ironias ou piadas com os candidatos reais.
Os humoristas têm medo da legislação e têm razão. Ela cerceia a expressão, inibe a manifestação e ameaça os que tratam sem salamaleques o mundo da política. No seu artigo 45, a Lei nº 9.504/97 proíbe as emissoras de televisão de fazer coisas que, “de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação”. Quem a descumprir está sujeito a multa de até 106 mil reais, que dobra na reincidência.
Que inveja dos americanos! Lá, ninguém poupa candidato nenhum, nem humoristas, nem apresentadores ou âncoras de talk-shows. Quem entra na chuva das eleições sabe que pode se molhar. Que o diga Sarah Palin, candidata a vice na chapa republicana derrotada em 2008. Merecia ser ridicularizada e o foi sem piedade. Imagine se lá existisse um Índio...
Por trás das proibições à graça e ao humor, está o espírito que atravessa por inteiro nossa legislação eleitoral: a desconfiança na capacidade de discernimento do cidadão, de que ele consiga julgar sozinho, de que possa prescindir de patronos. No dia em que nossas leis reconhecerem que o eleitor não precisa ser tratado com paternalismo, começaremos a construir uma cultura política verdadeiramente democrática. Onde rir dos candidatos é um direito que nenhuma falsa circunspecção deve reprimir.
Eleições sem graça
De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
Quem quiser sustentar a tese de que nossa legislação eleitoral é satisfatória terá poucos motivos. Salta aos olhos da maioria do país que ela é inconveniente e que já é mais que hora de mudá-la em profundidade.
Só por conveniência a defendem. Ninguém acha, com sinceridade, que seja boa, e, quando alguém finge admirá-la, é por puro oportunismo.
Semana passada, por exemplo, para (pela milionésima vez) criticar o que Lula faz, uma de nossas revistas semanais mais importantes disse, em editorial, que “... no Brasil de hoje, o governante se insurge de maneira histérica contra leis intrinsecamente boas, democraticamente feitas e aprovadas. A pouco mais de dois meses da votação em primeiro turno, zomba abertamente da consagrada Lei Eleitoral brasileira”.
É impressionante a quantidade de equívocos em um parágrafo tão curto. Independentemente das estocadas que querem dar em Lula, nenhuma dessas avaliações faz sentido. Embora seja um truísmo dizer foram feitas democraticamente (pois isso só não seria verdade se vivêssemos em uma ditadura), elas não são nem boas, nem aprovadas pela maioria da opinião pública. Portanto, nossa Lei Eleitoral pode ser tudo, menos “consagrada”.
São muitas as mostras de que elas são, ao contrário, más e que, por isso, insurgir-se contra elas não é histeria ou consiste em zombaria. Nossas leis eleitorais são tão ruins que fazem com que fiquemos cada dia mais distantes do que é desejável em uma cultura democrática.
Um dos maiores jornais do Rio de Janeiro trouxe, este fim de semana, reportagem sobre suas consequências nos programas humorísticos da televisão. À primeira vista, poder-se-ia dizer que é algo secundário, quase irrelevante na discussão política mais “séria”. Afinal, que significado teria o humor na vida política de uma sociedade?
Quem imaginar que pequeno (ou nenhum) incorreria em erro. O humor é um componente fundamental das relações saudáveis entre cidadãos e políticos, governos, candidatos e eleições. Rir deles é uma maneira de reduzir distâncias, de dessacralizá-los, de trazê-los para a esfera de ação das pessoas comuns. Em outras palavras, de aprofundar os valores mais básicos da democracia, igualitários e anti-hierárquicos. Não há nada mais genuinamente democrático que rir dos poderosos e suas atribulações.
Pois bem, na contra-mão de nossas antigas tradições, de sempre encontrar motivos para ironizar e brincar com os políticos e os candidatos, tão típicas da cultura brasileira, a legislação atual faz o oposto. Se depender dela, o humor está banido.
Ouvidos, os responsáveis pelos programas humorísticos de maior audiência foram unânimes. Nenhum pretende trazer as eleições para suas brincadeiras. Alguns pensam inventar personagens, para não deixar de falar nelas, nem que seja através de candidatos fictícios. Nada de graças, paródias, ironias ou piadas com os candidatos reais.
Os humoristas têm medo da legislação e têm razão. Ela cerceia a expressão, inibe a manifestação e ameaça os que tratam sem salamaleques o mundo da política. No seu artigo 45, a Lei nº 9.504/97 proíbe as emissoras de televisão de fazer coisas que, “de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação”. Quem a descumprir está sujeito a multa de até 106 mil reais, que dobra na reincidência.
Que inveja dos americanos! Lá, ninguém poupa candidato nenhum, nem humoristas, nem apresentadores ou âncoras de talk-shows. Quem entra na chuva das eleições sabe que pode se molhar. Que o diga Sarah Palin, candidata a vice na chapa republicana derrotada em 2008. Merecia ser ridicularizada e o foi sem piedade. Imagine se lá existisse um Índio...
Por trás das proibições à graça e ao humor, está o espírito que atravessa por inteiro nossa legislação eleitoral: a desconfiança na capacidade de discernimento do cidadão, de que ele consiga julgar sozinho, de que possa prescindir de patronos. No dia em que nossas leis reconhecerem que o eleitor não precisa ser tratado com paternalismo, começaremos a construir uma cultura política verdadeiramente democrática. Onde rir dos candidatos é um direito que nenhuma falsa circunspecção deve reprimir.
Boas e Más Leis
25/07/2010
Boas e Más Leis
De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
Sem a lei, não existe civilização e sociedade organizada. Sem a universalização da obrigação de cumpri-la, não existe democracia. Repetindo um velho e verdadeiro chavão, a democracia exige que o preceito da igualdade de todos perante a lei seja observado, seja no tocante aos direitos, seja aos deveres. Ela existe para todos e todos estão igualmente sujeitos a ela.
Daí não se deduz, no entanto, que as leis sejam imutáveis. Respeitá-las não quer dizer eternizá-las. As sociedades chegam a determinadas formulações institucionais e podem alterá-las, considerando que não se adéquam mais ao que ela considera desejável. Uma lei pode caducar. Era boa em determinado momento, mas, em outro, torna-se ultrapassada.
Nas leis fundamentais, essa mutabilidade é rara e pouco recomendável. Mas há outras em que é muito positivo que existam mecanismos que aumentem a possibilidade de mudanças e que até as encorajem.
Veja-se o caso da moderna legislação eleitoral brasileira. Toda ela foi feita depois de um hiato de mais de 20 anos de ditadura, nos quais as eleições para o Executivo foram circunscritas às disputas municipais (em cidades do interior) e as legislativas fortemente cerceadas. Enquanto o país passou por grandes mudanças econômicas, sociais e culturais, o sistema político permaneceu artificialmente congelado.
Note-se que nossa tradição democrática anterior ao golpe militar de 1964 não nos serviu de muita ajuda naquela altura, pois era modesta. Os intervalos democráticos que vivemos no século XX foram tão pequenos que não produziram referências jurídicas sólidas para a reconstrução institucional pós-ditadura. Em outras palavras, tivemos que inventar uma legislação eleitoral enquanto a íamos praticando.
Muita coisa foi feita na base da tentativa e do erro. Fez-se uma lei para uma eleição, verificou-se em que funcionou e mudou-se na outra. O compromisso não era com a permanência, mas com a eficácia. Todos queriam leis melhores, ainda que não fossem duráveis.
O resultado disso foi uma intensa volatilidade em nossas leis eleitorais. Durante muitos anos, cada eleição teve um marco jurídico diferente em aspectos fundamentais e não apenas em questões de detalhe. Em função disso, a cada uma se ouvia um coro de críticas à falta de “regras claras e homogêneas”, como se elas pudessem brotar do nada.
Hoje, é evidente a necessidade de reavaliar a legislação eleitoral. Há muita coisa nela que foi superada pelas transformações que atravessamos nos últimos 20 anos - na sociedade, nos meios de comunicação, na tecnologia. Ela usa expressões que ninguém mais conhece, se ocupa de coisas obsoletas e quer disciplinar outras que se tornaram irrelevantes.
Há, ainda, coisas que foram superadas na prática pelos atores políticos, independentemente de ideologia. Por exemplo, os limites ao livre uso do tempo de propaganda na televisão e o rádio, pois eles contrariam um objetivo maior, de fortalecimento dos partidos políticos. Por exemplo, o engessamento do processo eleitoral em um calendário que contraria o bom senso.
Nunca se falou tanto quanto nestas eleições presidenciais de “campanha antecipada”. É como se houvesse um consenso de que é bom, nas eleições, que os eleitores só conheçam as candidaturas na “hora certa”. Antes, por motivos desconhecidos, não seria desejável que soubessem quem são os candidatos, com quem estão, o que representam. Mas qual é a “hora certa”?
A resposta que nossa legislação dá à pergunta desafia a lógica: três meses antes da eleição. Se alguém se apresentar como candidato fora desse prazo, se pedir votos para si ou para outra pessoa, tem que pagar multa. E por que três e não seis meses ou um ano? Mais tempo de exposição das candidaturas não faria com que os cidadãos as pudessem analisar com mais cuidado e profundidade? E isso não seria bom?
Quem cobra punições para aqueles que “antecipam” as eleições não está à procura de justiça. Quer apenas usar uma legislação caduca (da qual, no íntimo, discorda), para impedir que outros façam o mesmo que faz.
Enquanto não mudarmos de vez nossa legislação eleitoral, as coisas vão ficar assim: a lei serve para proibir que seu adversário faça aquilo que você, tranquilamente, faz.
Boas e Más Leis
De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
Sem a lei, não existe civilização e sociedade organizada. Sem a universalização da obrigação de cumpri-la, não existe democracia. Repetindo um velho e verdadeiro chavão, a democracia exige que o preceito da igualdade de todos perante a lei seja observado, seja no tocante aos direitos, seja aos deveres. Ela existe para todos e todos estão igualmente sujeitos a ela.
Daí não se deduz, no entanto, que as leis sejam imutáveis. Respeitá-las não quer dizer eternizá-las. As sociedades chegam a determinadas formulações institucionais e podem alterá-las, considerando que não se adéquam mais ao que ela considera desejável. Uma lei pode caducar. Era boa em determinado momento, mas, em outro, torna-se ultrapassada.
Nas leis fundamentais, essa mutabilidade é rara e pouco recomendável. Mas há outras em que é muito positivo que existam mecanismos que aumentem a possibilidade de mudanças e que até as encorajem.
Veja-se o caso da moderna legislação eleitoral brasileira. Toda ela foi feita depois de um hiato de mais de 20 anos de ditadura, nos quais as eleições para o Executivo foram circunscritas às disputas municipais (em cidades do interior) e as legislativas fortemente cerceadas. Enquanto o país passou por grandes mudanças econômicas, sociais e culturais, o sistema político permaneceu artificialmente congelado.
Note-se que nossa tradição democrática anterior ao golpe militar de 1964 não nos serviu de muita ajuda naquela altura, pois era modesta. Os intervalos democráticos que vivemos no século XX foram tão pequenos que não produziram referências jurídicas sólidas para a reconstrução institucional pós-ditadura. Em outras palavras, tivemos que inventar uma legislação eleitoral enquanto a íamos praticando.
Muita coisa foi feita na base da tentativa e do erro. Fez-se uma lei para uma eleição, verificou-se em que funcionou e mudou-se na outra. O compromisso não era com a permanência, mas com a eficácia. Todos queriam leis melhores, ainda que não fossem duráveis.
O resultado disso foi uma intensa volatilidade em nossas leis eleitorais. Durante muitos anos, cada eleição teve um marco jurídico diferente em aspectos fundamentais e não apenas em questões de detalhe. Em função disso, a cada uma se ouvia um coro de críticas à falta de “regras claras e homogêneas”, como se elas pudessem brotar do nada.
Hoje, é evidente a necessidade de reavaliar a legislação eleitoral. Há muita coisa nela que foi superada pelas transformações que atravessamos nos últimos 20 anos - na sociedade, nos meios de comunicação, na tecnologia. Ela usa expressões que ninguém mais conhece, se ocupa de coisas obsoletas e quer disciplinar outras que se tornaram irrelevantes.
Há, ainda, coisas que foram superadas na prática pelos atores políticos, independentemente de ideologia. Por exemplo, os limites ao livre uso do tempo de propaganda na televisão e o rádio, pois eles contrariam um objetivo maior, de fortalecimento dos partidos políticos. Por exemplo, o engessamento do processo eleitoral em um calendário que contraria o bom senso.
Nunca se falou tanto quanto nestas eleições presidenciais de “campanha antecipada”. É como se houvesse um consenso de que é bom, nas eleições, que os eleitores só conheçam as candidaturas na “hora certa”. Antes, por motivos desconhecidos, não seria desejável que soubessem quem são os candidatos, com quem estão, o que representam. Mas qual é a “hora certa”?
A resposta que nossa legislação dá à pergunta desafia a lógica: três meses antes da eleição. Se alguém se apresentar como candidato fora desse prazo, se pedir votos para si ou para outra pessoa, tem que pagar multa. E por que três e não seis meses ou um ano? Mais tempo de exposição das candidaturas não faria com que os cidadãos as pudessem analisar com mais cuidado e profundidade? E isso não seria bom?
Quem cobra punições para aqueles que “antecipam” as eleições não está à procura de justiça. Quer apenas usar uma legislação caduca (da qual, no íntimo, discorda), para impedir que outros façam o mesmo que faz.
Enquanto não mudarmos de vez nossa legislação eleitoral, as coisas vão ficar assim: a lei serve para proibir que seu adversário faça aquilo que você, tranquilamente, faz.
Lula, FHC e Serra
21/07/2010
Lula, FHC e Serra
De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
Outro dia, o ex-governador José Serra fez uma declaração surpreendente. Falando a uma rádio de Pernambuco, disse que Lula e Fernando Henrique “são iguais”. Como, provavelmente, suas palavras foram recebidas com incredulidade, teve logo que aduzir que falava com fundados motivos, pois “conhecia bem os dois”.
Quem ficasse com a manchete teria uma impressão equivocada do que ele pretendia dizer. Serra não fez a comparação para externar algo que muita gente pensa, que os dois últimos presidentes se parecem nas suas opções para as principais políticas de governo (a começar pela política econômica) e que as semelhanças entre o que fazem concretamente suplantam, muitas vezes, suas diferenças retóricas.
Seria, até, uma declaração normal, considerando a época em que estamos e as características de sua candidatura. Afinal, Serra tem procurado se equilibrar entre a crítica e o aplauso a Lula, para não alienar (em definitivo) os que admiram o presidente. Por isso, a frase poderia ser vista como habilidosa, uma maneira de afirmar que PSDB e PT não são tão antagônicos.
O curioso, no entanto, é que Serra não falou que os dois eram iguais no bom sentido. Ao contrário, disse-o para salientar que ambos fizeram errado e que ele faria certo, se eleito presidente. Lula e seu antecessor são, para o candidato do PSDB, igualmente responsáveis por não termos ainda feito a reforma política de que o Brasil precisa. Se ele ganhar, ela acontecerá.
Para demonstrar o empenho que teria para levá-la a cabo, disse que se preocupa com o assunto há muito tempo, tendo chegado a conversar com Lula para convencê-lo a se engajar na luta. Pelo visto, não conseguiu, pois ela não se concretizou. Assim como não teve êxito em persuadir o antecessor dele no Planalto, com quem Serra terá tido milhares de oportunidades para tratar do tema. Ou seja, por mais que tenha tentado, a reforma política não andou. Mas não por sua causa. A culpa é de Fernando Henrique e de Lula. Daí que são iguais.
É fácil concordar com ele a respeito do pouco que nossos dois últimos presidentes fizeram a respeito. Ambos tiveram condições, mas, por motivos diferentes, acabaram ficando aquém do que poderiam. Especialmente Lula, que governou com níveis estratosféricos de aprovação e que tinha muito mais poder de influenciar o Congresso.
O que se ignorava é a atuação de Serra na batalha pela reforma política. Embora, como todo político brasileiro, tenha se manifestado protocolarmente sobre sua conveniência, desconhecia-se que fosse um militante da ideia. Como liderança maior das oposições (a ponto de ser seu único representante nas eleições presidenciais), como político maduro e experiente, ex-deputado e ex-senador, ex-presidente do PSDB, ex-governador de São Paulo, é pena que sua voz não tenha sido ouvida. Fora a conversa privada que revelou ter mantido com Lula, a opinião pública não foi informada do que mais terá feito pela reforma.
Para sublinhar que suas palavras eram para valer, Serra acrescentou: “Vou bancar a reforma política neste país, vou peitar e bancar”. Releve-se o tom popular da declaração, comum nas entrevistas que os políticos dão a emissoras de rádio. Eles acham que os ouvintes só os entendem se usarem uma linguagem “bem povão”. Mas é uma frase estranha.
Os dicionários registram dois sentidos para a palavra peitar. O antigo é de pagamento de uma obrigação, mas também de “dar uma coisa para que se faça outra (...) subornar com dádivas”, segundo o Houaiss. Certamente, não foi pensando em fazer algo parecido no Congresso para aprovar a reforma política que Serra a empregou.
A segunda acepção, mais próxima do clima da entrevista, é “abrir caminho com o peito”, “arrostar de frente, de modo destemido”, “dar encontrão ou batida”. Parece que está prometendo que, se eleito, vai fazer com que Câmara e Senado aprovem a reforma nem que seja à custa de trombadas.
Como José Serra nunca foi disso na sua vida pública (ainda bem!), só se pode debitar ao nervosismo de campanha sua declaração. Que nada mais é que querer navegar na onda do inconformismo das pessoas comuns frente ao que veem na política. E lhes oferecer a (perigosa) ilusão de que é “na marra” que iremos adiante.
Uma pergunta: o que diriam alguns de nossos jornais se a declaração fosse de Dilma?
Lula, FHC e Serra
De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
Outro dia, o ex-governador José Serra fez uma declaração surpreendente. Falando a uma rádio de Pernambuco, disse que Lula e Fernando Henrique “são iguais”. Como, provavelmente, suas palavras foram recebidas com incredulidade, teve logo que aduzir que falava com fundados motivos, pois “conhecia bem os dois”.
Quem ficasse com a manchete teria uma impressão equivocada do que ele pretendia dizer. Serra não fez a comparação para externar algo que muita gente pensa, que os dois últimos presidentes se parecem nas suas opções para as principais políticas de governo (a começar pela política econômica) e que as semelhanças entre o que fazem concretamente suplantam, muitas vezes, suas diferenças retóricas.
Seria, até, uma declaração normal, considerando a época em que estamos e as características de sua candidatura. Afinal, Serra tem procurado se equilibrar entre a crítica e o aplauso a Lula, para não alienar (em definitivo) os que admiram o presidente. Por isso, a frase poderia ser vista como habilidosa, uma maneira de afirmar que PSDB e PT não são tão antagônicos.
O curioso, no entanto, é que Serra não falou que os dois eram iguais no bom sentido. Ao contrário, disse-o para salientar que ambos fizeram errado e que ele faria certo, se eleito presidente. Lula e seu antecessor são, para o candidato do PSDB, igualmente responsáveis por não termos ainda feito a reforma política de que o Brasil precisa. Se ele ganhar, ela acontecerá.
Para demonstrar o empenho que teria para levá-la a cabo, disse que se preocupa com o assunto há muito tempo, tendo chegado a conversar com Lula para convencê-lo a se engajar na luta. Pelo visto, não conseguiu, pois ela não se concretizou. Assim como não teve êxito em persuadir o antecessor dele no Planalto, com quem Serra terá tido milhares de oportunidades para tratar do tema. Ou seja, por mais que tenha tentado, a reforma política não andou. Mas não por sua causa. A culpa é de Fernando Henrique e de Lula. Daí que são iguais.
É fácil concordar com ele a respeito do pouco que nossos dois últimos presidentes fizeram a respeito. Ambos tiveram condições, mas, por motivos diferentes, acabaram ficando aquém do que poderiam. Especialmente Lula, que governou com níveis estratosféricos de aprovação e que tinha muito mais poder de influenciar o Congresso.
O que se ignorava é a atuação de Serra na batalha pela reforma política. Embora, como todo político brasileiro, tenha se manifestado protocolarmente sobre sua conveniência, desconhecia-se que fosse um militante da ideia. Como liderança maior das oposições (a ponto de ser seu único representante nas eleições presidenciais), como político maduro e experiente, ex-deputado e ex-senador, ex-presidente do PSDB, ex-governador de São Paulo, é pena que sua voz não tenha sido ouvida. Fora a conversa privada que revelou ter mantido com Lula, a opinião pública não foi informada do que mais terá feito pela reforma.
Para sublinhar que suas palavras eram para valer, Serra acrescentou: “Vou bancar a reforma política neste país, vou peitar e bancar”. Releve-se o tom popular da declaração, comum nas entrevistas que os políticos dão a emissoras de rádio. Eles acham que os ouvintes só os entendem se usarem uma linguagem “bem povão”. Mas é uma frase estranha.
Os dicionários registram dois sentidos para a palavra peitar. O antigo é de pagamento de uma obrigação, mas também de “dar uma coisa para que se faça outra (...) subornar com dádivas”, segundo o Houaiss. Certamente, não foi pensando em fazer algo parecido no Congresso para aprovar a reforma política que Serra a empregou.
A segunda acepção, mais próxima do clima da entrevista, é “abrir caminho com o peito”, “arrostar de frente, de modo destemido”, “dar encontrão ou batida”. Parece que está prometendo que, se eleito, vai fazer com que Câmara e Senado aprovem a reforma nem que seja à custa de trombadas.
Como José Serra nunca foi disso na sua vida pública (ainda bem!), só se pode debitar ao nervosismo de campanha sua declaração. Que nada mais é que querer navegar na onda do inconformismo das pessoas comuns frente ao que veem na política. E lhes oferecer a (perigosa) ilusão de que é “na marra” que iremos adiante.
Uma pergunta: o que diriam alguns de nossos jornais se a declaração fosse de Dilma?
Votos e Planos
18/07/2010
Votos e Planos
De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Popul
Dizer que os planos de governo são pouco mais que peças decorativas em uma campanha pode soar como heresia. Pior, como uma afirmativa que renega tudo que as campanhas deveriam ser.
Existe, no centro de nossa cultura política, um modelo idealizado do processo eleitoral, em função do qual estabelecemos o certo e o errado nas eleições e no comportamento dos candidatos. Nele, os planos de governo são a parte nobre da disputa, a razão para que o eleitor opte por um candidato e descarte outros.
Nessa visão abstrata, qualquer voto que não se baseie nas propostas dos candidatos é inferior. Se o eleitor deixar que suas paixões o dominem, se permitir que alguém o influencie, se pensar com seu bolso ao invés de com sua mente, comete um pecado contra a cidadania. Bom é aquele que olha apenas os planos de governo.
Se as coisas fossem assim, o eleitor teria uma árdua tarefa pela frente, procurando se informar sobre os projetos dos vários candidatos para cada área. Depois, os analisaria, quem sabe usando critérios como exequibilidade e relevância, para chegar a uma conclusão a respeito de cada um. E ai do candidato que não tivesse propostas para todas as políticas: com uma nota zero, por exemplo, na parte dedicada à energia, precisaria de um dez quando suas metas de política monetária fossem escrutinadas.
É evidente que isso não existe, nem do lado dos eleitores, nem dos candidatos. E não é por que somos uma sociedade pobre e temos uma cultura política imatura. As eleições não são assim em lugar nenhum do mundo.
Eleições não são exames escolares, em que os eleitores-julgadores avaliam racionalmente os candidatos, dando a uns notas baixas e ao “melhor” o diploma de honra ao mérito. Elas envolvem paixões, interesses, lealdades, emoções, identidades formadas ao longo da vida, torcidas. Na imensa maioria das vezes, as pessoas primeiro escolhem em quem vão votar e só depois ficam sabendo o que “seu” candidato propõe. Por isso, elas sempre preferem seus projetos e acham piores os dos adversários (mesmo quando são bons).
No Brasil contemporâneo, não houve uma só eleição presidencial em que as propostas dos candidatos, literalmente falando, tivessem sido relevantes. Ninguém votou Collor pelo “plano de governo”, mas por que queria juventude e mudança. Fernando Henrique ganhou e se reelegeu com um plano de uma palavra só: real. Lula chegou e permaneceu no poder por que a população se convenceu de que a hora dele tinha chegado, pois estava cansada da elite que governava.
Os candidatos não gostam de perder tempo com esforços inúteis. Para que fazer detalhados e minuciosos planos de governo, se a eleição é sempre incerta? Apenas para satisfazer uma formalidade, dado que os eleitores pouco vão vê-los?
Na disputa, o máximo que as candidaturas apresentam são “planos de campanha”, não “de governo”. Na essência, são ideias pensadas para se transformar em peças de propaganda, que nem precisam ser inteiramente realistas. Como se destinam à televisão, têm que ser simples e curtas, sem fundamentações e cálculos de viabilidade. Seu objetivo é fixar, através do conteúdo, a imagem que se pretende projetar para o candidato: “conhece as pessoas carentes”, “sabe o que fazer para resolver os problemas do povo” e atributos semelhantes. Não são formuladas para governar, mas para ganhar a eleição.
Por isso, os verdadeiros planos só são elaborados depois que o candidato vence, quando seus assessores recebem os dados de dentro do governo e se dedicam seriamente a eles. É nas equipes de transição que se fazem planos de governo, não nas de campanha.
Quem reclama da falta de “planos de governo” nestas eleições talvez não se dê conta, mas, para a maioria das pessoas, eles são claros: Dilma quer manter e Serra mudar o que Lula está fazendo. Essa informação basta para elas.
Votos e Planos
De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Popul
Dizer que os planos de governo são pouco mais que peças decorativas em uma campanha pode soar como heresia. Pior, como uma afirmativa que renega tudo que as campanhas deveriam ser.
Existe, no centro de nossa cultura política, um modelo idealizado do processo eleitoral, em função do qual estabelecemos o certo e o errado nas eleições e no comportamento dos candidatos. Nele, os planos de governo são a parte nobre da disputa, a razão para que o eleitor opte por um candidato e descarte outros.
Nessa visão abstrata, qualquer voto que não se baseie nas propostas dos candidatos é inferior. Se o eleitor deixar que suas paixões o dominem, se permitir que alguém o influencie, se pensar com seu bolso ao invés de com sua mente, comete um pecado contra a cidadania. Bom é aquele que olha apenas os planos de governo.
Se as coisas fossem assim, o eleitor teria uma árdua tarefa pela frente, procurando se informar sobre os projetos dos vários candidatos para cada área. Depois, os analisaria, quem sabe usando critérios como exequibilidade e relevância, para chegar a uma conclusão a respeito de cada um. E ai do candidato que não tivesse propostas para todas as políticas: com uma nota zero, por exemplo, na parte dedicada à energia, precisaria de um dez quando suas metas de política monetária fossem escrutinadas.
É evidente que isso não existe, nem do lado dos eleitores, nem dos candidatos. E não é por que somos uma sociedade pobre e temos uma cultura política imatura. As eleições não são assim em lugar nenhum do mundo.
Eleições não são exames escolares, em que os eleitores-julgadores avaliam racionalmente os candidatos, dando a uns notas baixas e ao “melhor” o diploma de honra ao mérito. Elas envolvem paixões, interesses, lealdades, emoções, identidades formadas ao longo da vida, torcidas. Na imensa maioria das vezes, as pessoas primeiro escolhem em quem vão votar e só depois ficam sabendo o que “seu” candidato propõe. Por isso, elas sempre preferem seus projetos e acham piores os dos adversários (mesmo quando são bons).
No Brasil contemporâneo, não houve uma só eleição presidencial em que as propostas dos candidatos, literalmente falando, tivessem sido relevantes. Ninguém votou Collor pelo “plano de governo”, mas por que queria juventude e mudança. Fernando Henrique ganhou e se reelegeu com um plano de uma palavra só: real. Lula chegou e permaneceu no poder por que a população se convenceu de que a hora dele tinha chegado, pois estava cansada da elite que governava.
Os candidatos não gostam de perder tempo com esforços inúteis. Para que fazer detalhados e minuciosos planos de governo, se a eleição é sempre incerta? Apenas para satisfazer uma formalidade, dado que os eleitores pouco vão vê-los?
Na disputa, o máximo que as candidaturas apresentam são “planos de campanha”, não “de governo”. Na essência, são ideias pensadas para se transformar em peças de propaganda, que nem precisam ser inteiramente realistas. Como se destinam à televisão, têm que ser simples e curtas, sem fundamentações e cálculos de viabilidade. Seu objetivo é fixar, através do conteúdo, a imagem que se pretende projetar para o candidato: “conhece as pessoas carentes”, “sabe o que fazer para resolver os problemas do povo” e atributos semelhantes. Não são formuladas para governar, mas para ganhar a eleição.
Por isso, os verdadeiros planos só são elaborados depois que o candidato vence, quando seus assessores recebem os dados de dentro do governo e se dedicam seriamente a eles. É nas equipes de transição que se fazem planos de governo, não nas de campanha.
Quem reclama da falta de “planos de governo” nestas eleições talvez não se dê conta, mas, para a maioria das pessoas, eles são claros: Dilma quer manter e Serra mudar o que Lula está fazendo. Essa informação basta para elas.
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