domingo, 19 de setembro de 2010

A onda de denúncias

19/09/2010

A onda de denúncias

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Por uma coincidência extraordinária, denúncias pipocam a toda hora nestes últimos dias de campanha eleitoral. Faltando duas semanas para a eleição do sucessor ou, pelo que parece, da sucessora de Lula, falar delas se tornou uma verdadeira obsessão para nossa grande imprensa.

Se contarmos o tempo transcorrido desde quando surgiu o “escândalo da Receita”, já faz quase um mês que os grandes jornais de São Paulo e Rio, as maiores revistas de informação e o noticiário da principal emissora de televisão dão cobertura máxima a denúncias de vários tipos contra Dilma, sua campanha, o PT e o governo Lula.

O caso da Receita e o mais recente, envolvendo o filho da ex-ministra Erenice Guerra, receberam a atenção de todos. Outros, como a bombástica revelação que uma “falha” de Dilma redundara em prejuízo de R$ 1 bilhão aos consumidores de energia elétrica, ficaram reduzidos ao esforço isolado de um veículo. Como ninguém a levou a sério (sequer o jornal que a havia patrocinado), foi logo esquecida.

Esse disposição para denunciar não atinge o universo da imprensa. Brasil afora, jornais e revistas regionais e estaduais mostram-se menos dispostos a fazer coro com os “grandes”. O mesmo vale na mídia eletrônica, onde o tom escandaloso não é o padrão de todas.

É curioso, mas nenhuma dessas denúncias nasceu na internet, contrariando tendência cada vez mais comum em outros países. Lá, é nos blogs e sites independentes que coisas assim começam e têm seu curso, muitas vezes enfrentando a inércia da mídia tradicional. Aqui, ao contrário, são os jornalões e os grupos de comunicação mais poderosos os mais afoitos na apresentação e apuração de denúncias.

Não se discute se são falsas ou verdadeiras. É certo que algumas, como o “escândalo da eletricidade”, são apenas bobagens. Outras são importantes e produzem consequências reais, como a que levou à saída de Erenice.

Existem as que estavam na geladeira, ao que parece aguardando um “bom momento” para vir à tona, como o “escândalo da Receita”. E há as que, aparentemente, apenas coincidiram com outras, como o “escândalo do caseiro”, que ressurgiu das cinzas agora que a Caixa Econômica foi condenada a indenizar a vítima.

Também não se discute o que fazer nos casos em que há suspeita fundamentada ou confirmação de que alguma irregularidade foi praticada. Partindo da premissa de que somos um país sério e que as instituições funcionam, qualquer denúncia com verossimilhança precisa ser apurada e os culpados punidos. Aliás, todas estão sendo acompanhadas pelo Ministério Público, a Polícia Federal e a própria imprensa.

Mas só a velhinha de Taubaté acredita que a coincidência de tantos “escândalos” é obra do acaso. A onda nasceu em tal momento que é impossível não desconfiar que exista intencionalidade por trás dela.

Os segmentos na sociedade e na mídia insatisfeitos com a possibilidade de vitória de Dilma aguardavam ansiosos o começo da propaganda eleitoral na televisão e no rádio. Sabe-se lá de onde, imaginavam que Serra reagiria a partir de 17 de agosto e que conseguiria reverter suas perspectivas muito desfavoráveis.

Não viam que o mais provável era o oposto, que Dilma crescesse quando Lula chegasse à televisão. Como resultado de mais um dos equívocos que cometeram na avaliação das eleições, se surpreenderam quando a vantagem da candidata do PT rapidamente aumentou.

Foi de repente, quando a decepção com a performance de Serra e o susto com o bom desempenho de Dilma se generalizaram, que começamos a ter uma denúncia atrás da outra. A temporada de escândalos teve sua largada na última semana de agosto, quando saíram as primeiras pesquisas públicas feitas após o inicio do horário gratuito, mostrando que a diferença entre eles passava de 20 pontos.

De lá para cá, nada mudou nas intenções de voto. Alguns comentaristas procuram indícios de oscilações, com lupas esperançosas, ansiosos para encontrar sinais de que tanto barulho produza efeitos. Até agora, nada.

Chega a ser engraçado, mas há países em que se proíbe a divulgação de pesquisas eleitorais nos 30 dias que antecedem uma eleição. Tudo para não perturbar as pessoas na fase da campanha em que deveriam pensar mais. Eles acham que ninguém deveria interferir nesse momento de recolhimento e reflexão.

É por que não conhecem o que é capaz de fazer (ou de tentar fazer) nossa “grande imprensa”.

Os jornalistas tucanos

18/09/2010

Os jornalistas tucanos

Marcos Coimbra 18 de setembro de 2010 às 10:58h

Quando, no futuro, for escrita a crônica das eleições de 2010, procurando entender o desfecho que hoje parece mais provável, um capítulo terá de ser dedicado ao papel que nelas tiveram os jornalistas tucanos.

Foram muitas as causas que concorreram para provocar o resultado destas eleições. Algumas são internas aos partidos oposicionistas, suas lideranças, seu estilo de fazer política. É bem possível que se saíssem melhor se tivessem se renovado, mudado de comportamento. Se tivessem permitido que novos quadros assumissem o lugar dos antigos.

Por motivos difíceis de entender, as oposições aceitaram que sua velha elite determinasse o caminho que seguiriam na sucessão de Lula. Ao fazê-lo, concordaram em continuar com a cara que tinham em 2002, mostrando-se ao País como algo que permanecera no mesmo lugar, enquanto tudo mudara. A sociedade era outra, a economia tinha ficado diferente, o mundo estava modificado. Lula e o PT haviam se transformado. Só o que se mantinha intocada era a oposição brasileira: as mesmas pessoas, o mesmo discurso, o mesmo ar perplexo de quem não entende por que não está no poder.

Em nenhum momento isso ficou tão claro quanto na opção de conceder a José Serra uma espécie de direito natural à candidatura presidencial (e todo o tempo do mundo para que confirmasse se a desejava). Depois, para que resolvesse quando começaria a fazer campanha. Não se discutiu o que era melhor para os partidos, seus militantes, as pessoas que concordam com eles na sociedade. Deram-lhe um cheque em branco e deixaram a decisão em suas mãos, tornando-a uma questão de foro íntimo: ser ou não ser (candidato)?

Mas, por mais que as oposições tivessem sido capazes de se renovar, por mais que houvessem conseguido se libertar de lideranças ultrapassadas, a principal causa do resultado que devemos ter é externa. Seu adversário se mostrou tão superior que lhes deu um passeio.

Olhando-a da perspectiva de hoje, a habilidade de Lula na montagem do quadro eleitoral de 2010 só pode ser admirada. Fez tudo certo de seu lado e conseguiu antecipar com competência o que seus oponentes fariam. Ele se parece com um personagem de histórias infantis: construiu uma armadilha e conduziu os ingênuos carneirinhos (que continuavam a se achar muito espertos) a cair nela.

Se tivesse feito, nos últimos anos, um governo apenas sofrível, sua destreza já seria suficiente para colocá-lo em vantagem. Com o respaldo de um governo quase unanimemente aprovado, com indicadores de performance muito superiores aos de seus antecessores, a chance de que fizesse sua sucessora sempre foi altíssima, ainda que as oposições viessem com o que tinham de melhor.

Entre os erros que elas cometeram e os acertos de Lula, muito se explica do que vamos ter em 3 de outubro. Mas há uma parte da explicação que merece destaque: o quanto os jornalistas tucanos contribuíram para que isso ocorresse.

Foram eles que mais estimularam a noção de que Serra era o verdadeiro nome das oposições para disputar com Dilma Rousseff. Não apenas os jornalistas profissionais, mas também os intelectuais que os jornais recrutam para dar mais “amplitude” às suas análises e cobertura.

Não há ninguém tão dependente da opinião do jornalista tucano quanto o político tucano. Parece que acorda de manhã ansioso para saber o que colunistas e comentaristas tucanos (ou que, simplesmente, não gostam de Lula e do governo) escreveram. Sabe-se lá o motivo, os tucanos da política acham que os tucanos da imprensa são ótimos analistas. São, provavelmente, os únicos que acham isso.

Enquanto os bons políticos tucanos (especialmente os mais jovens) viam com clareza o abismo se abrir à sua frente, essa turma empurrava as oposições ladeira abaixo. Do alto de sua incapacidade de entender o eleitor, ela supunha que Serra estava fadado à vitória.

Quem acompanhou a cobertura que a “grande imprensa” fez destas eleições viu, do fim de 2009 até agora, uma sucessão de análises erradas, hipóteses furadas, teses sem pé nem cabeça. Todas inventadas para justificar o “favoritismo” de Serra, que só existia no desejo de quem as elaborava.

Se não fossem tão ineptas, essas pessoas poderiam, talvez, ter impulsionado as oposições na direção de projetos menos equivocados. Se não fossem tão arrogantes, teriam, quem sabe, poupado seus amigos políticos do fracasso quase inevitável que os espera.

Fatos e Versões

15/09/2010

Fatos e Versões

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Nas eleições, como em tudo na vida, uma coisa são os fatos, outra as versões. E, nem sempre, aqueles são mais importantes. Na luta política, uma versão bem defendida vale mais que muitos fatos.

Uma vitória, por exemplo, pode ficar parecida a uma derrota, de tão diminuída e apequenada. Depende do que sobre ela se diz. Por maior e mais extraordinária que seja, os derrotados podem se vingar, ganhando a batalha das versões. Os vitoriosos, ao invés de comemorar e receber elogios, ficam na posição de se explicar, se defender. Os perdedores lhes roubam a cena.

Neste final de campanha eleitoral, à medida que nos aproximamos da data da eleição, a perspectiva de uma vitória de Dilma por larga margem só tem aumentado. Ao que tudo indica, ela vai conseguir o que Lula não conseguiu em nenhuma das eleições que disputou: ganhar no primeiro turno. A crer nos números das pesquisas, ela está prestes a alcançar, já no dia 3 de outubro, a votação que ele obteve apenas no segundo turno de 2006, quando chegou a 60% dos votos válidos. Não é nada, não é nada, Dilma tem tudo para se tornar, daqui a três semanas, a pessoa mais votada de nossa história.

Enquanto a eleição real avança, a guerra de narrativas sobre seu provável resultado está em curso. De um lado, a que é formulada pelas forças políticas e as correntes de opinião que não conseguiram apoio na sociedade para levar seu candidato à vitória. Do outro, a dos vencedores.

Paradoxalmente, são os prováveis derrotados na batalha eleitoral real que estão em vantagem na briga das versões. Vão perder, ao que parece, na contagem dos votos, mas têm, pelo menos por enquanto, o consolo de fazer que sua interpretação prevaleça.

É o oposto daquilo que o professor Edgar de Decca, da Unicamp, caracterizou há alguns anos. Escrevendo sobre a Revolução de 1930, ele mostrou que ela entrou para nossa história através da narrativa daqueles que a venceram. Tudo aquilo pelo qual se bateram os derrotados foi ignorado ou desconsiderado. Sobre aquele movimento, nossa historiografia só nos conta a versão dos vencedores. Ninguém mais se lembra do que queria o outro lado. Impôs-se a ele “o silêncio dos vencidos”.

Em 2002, Lula e o PT venceram tanto a eleição, quanto a batalha das versões. Quando o resultado objetivo foi proclamado, estava pronto um discurso: era “a vitória da esperança sobre o medo” e o Brasil podia sentir orgulho de sua própria coragem ao colocar na Presidência um metalúrgico. Ninguém deslegitimou o que as urnas disseram.

Se Lula começasse seu segundo mandato depois de uma apertada vitória sobre Alckmin no primeiro turno da eleição de 2006, seria complicado livrar-se da interpretação de que, depois do mensalão, havia diminuído de tamanho. Mas, no segundo turno, cresceu tanto que até seus detratores tiveram que reconhecer que nada indicava que fosse essa a realidade.

Agora, na véspera do que todos calculam ser a eleição de Dilma, está sendo elaborada uma versão que a reduz. Nela, a vitória é apresentada como um misto de manipulação (“usaram o Bolsa Família para comprar o voto dos miseráveis”), ilegalidade (“Lula passou por cima de nossa legislação eleitoral”) e jogo sujo (“montaram um fábrica de dossiês para derrotar José Serra”).

Nesse tipo de combate, não faz a menor diferença se algo é verdade ou não. Como é apenas uma guerra de versões, o que conta é falar alto. Quem tem meios de comunicação (jornais, revistas, emissoras de televisão) à disposição para propagandear seus argumentos, sempre leva vantagem. Pode até ganhar.

Que importa se apenas 20% do voto de Dilma vem de eleitores em cujo domicílio alguém recebe o benefício (ou seja, que ela tem votos suficientes para ganhar no primeiro turno ainda que esses fossem proibidos de votar)? Que importa se nossas leis são tão inadequadas que até uma passeata de humoristas a modifica? Que importa se nada do resultado da eleição pode ser debitado a qualquer dossiê, existente ou imaginado?

Mas fatos são sempre fatos. E as versões, por mais insistentes que sejam, não os modificam. Ganha-se no grito, mas perde-se no voto. Lá na frente, os fatos terminarão por se impor.

Perder uma eleição

12/09/2010

Perder uma eleição

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Nas eleições, chega uma hora em que todos os candidatos, menos um, tomam consciência que vão perder (ou que já perderam). Há casos em que a disputa permanece acirrada até a véspera e ninguém é obrigado a fazer essa difícil admissão. São mais numerosas, no entanto, as que logo se afunilam e se resolvem cedo.

Os políticos sempre entram nas eleições esperando ganhar, mesmo quando sabem que suas chances são mínimas. Existem os que participam apenas para defender posição ou divulgar as plataformas de seus partidos, mas são raros. Também há os exibicionistas, cuja única intenção é usufruir o prazer de se ver na televisão. Esses não contam.

Depois que as campanhas começam, a expectativa de vitória costuma tornar-se certeza. Por menores que sejam, os candidatos vão se convencendo que suas possibilidades são grandes. Talvez porque convivam principalmente com seguidores e áulicos, talvez porque confundam a boa educação dos cidadãos para com eles, fantasiando que uma simples cordialidade traduza apoio. Mas é certo que, a alturas tantas, todos achem que vão ganhar.

Ao contrário do que se poderia imaginar, as pesquisas eleitorais não mudam sua opinião. Não é por estar lá atrás e haver outros mais bem situados que eles pensam com mais cautela. Todos têm vários exemplos para citar, de políticos que começaram mal nas pesquisas e terminaram ganhando.

A constatação de que uma derrota é iminente é especialmente complicada para os candidatos maiores, dos grandes partidos. Ainda mais se estiveram na liderança das pesquisas.

Agora, por exemplo. O que deve fazer um candidato como José Serra? Como deve se comportar nos 20 dias finais desta eleição?

A imensa frente que todas as pesquisas dão a Dilma poderia ser desconsiderada. Afinal, pesquisa é pesquisa e não é eleição. Mas, será que ele não percebe de outras formas que sua chance de vencer é remota? Será que não vê isso no olhar até de seus seguidores mais fiéis?

Ninguém gosta de chegar à conclusão que um projeto acalentado há muito tempo não vai dar certo, antes que a inevitabilidade se imponha. Não faz parte do senso comum a expressão “a esperança é a última que morre”? Que, enquanto há vida, não se deve renunciar a ela?

O problema é que, quase sempre, esses momentos levam as pessoas a gestos extremos, nos quais não se reconheceriam em condições normais. O ateu vira crente, o racional vira místico, o sério pode ficar ridículo. O arrependimento por essas guinadas costuma ser grande.

Na política, encruzilhadas desse tipo são ainda mais perigosas. A caminho da derrota, o candidato se isola cada vez mais, começa a ouvir apenas os assessores que o aconselham a fazer de tudo, a tentar qualquer coisa. A usar de qualquer recurso e não admitir o insucesso.

Nessa hora, os candidatos deveriam parar de pensar no que ainda resta a fazer, no esforço inútil de reverter uma situação sem perspectiva, e olhar para frente. Perder e ganhar são parte da vida de quem opta por uma carreira política. Ganhar é sempre melhor, mas perder mal é muito pior que saber perder.

Tanto Serra, quanto as oposições, precisam pensar no que vão fazer nos últimos 20 dias destas eleições. Podem continuar no rumo em que estão, tentando tudo (e mais alguma coisa) para mudar o desfecho que todos antecipam. Podem continuar a fazer como fizeram desde o ano passado, quando embarcaram na canoa que os trouxe até aqui.

Ou podem aproveitá-los para começar um longo, mas necessário, processo de reconstrução da oposição no Brasil. Não vai ser fácil corrigir os equívocos cometidos nos últimos anos e esta é uma oportunidade que não deve ser desperdiçada. O país estará atento ao final destas eleições e as oposições terão um momento privilegiado para dizer o que pretendem ser nos próximos anos.

Mostrar-se rancorosas, amargas, ressentidas, é tudo que não precisam.

O fato novo

08/09/2010

O fato novo

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Quem, nas duas últimas semanas, leu os colunistas dos “grandes jornais” (os três maiores de São Paulo e Rio) deve ter notado a insistência com que falaram (ou deixaram implícito) que as eleições presidenciais não estavam definidas. Contrariando o que as pesquisas mostravam (a avassaladora dianteira de Dilma), fizeram quase um coro de que “nada era definitivo”, pois fatos novos poderiam alterar o cenário.

Talvez imaginassem (desconfiassem, soubessem) que uma “bomba” iria explodir. Tão poderosa que mudaria tudo. De favorita inconteste, Dilma (quem sabe?) desmoronaria, viraria poeira.

Veio o fato novo: o “escândalo da Receita”. Durante dias, foi a única manchete dos três jornais. É muito? Certamente que sim, mas é pouco, em comparação ao auxílio luxuoso da principal emissora de televisão do país. Fazia tempo que um evento do mundo político não ganhava tanto destaque em seus telejornais. Houve noites em que recebeu mais de 10 minutos de cobertura (com direito a ser tratado com o tom circunspecto que seus apresentadores dedicam aos “assuntos graves”).

Hoje, passados 15 dias de quando “estourou” o “escândalo”, as pesquisas mostram que seu impacto foi nulo. A “bomba” esperada pelos que torciam pelo fato novo virou um traque.

Por mais que os “grandes” jornais tenham se esforçado para fazer do “escândalo da Receita” um divisor de águas, ele acabou sendo nada. Tudo continuou igual: Dilma lá na frente, Serra lá atrás.

Tivemos, nesses dias, uma espécie de dueto: um dia, essa imprensa publicava alguma coisa; no outro, a comunicação da campanha Serra a amplificava, dando-lhe “tom emocional”. No terceiro, mais um “fato” era divulgado, alimentando a campanha com um novo conteúdo. E assim por diante.

Um bom exemplo: o “lado humano” da filha de Serra ser alvo dos malfeitores por trás do “escândalo”. Noticiado ontem, virou discurso de campanha no dia seguinte, com direito a tom lacrimejante: “estão fazendo com a filha do Serra o mesmo que fizeram com a filha do Lula”.

Há várias razões para que a opinião pública tenha tratado com indiferença o “escândalo”. A primeira é que ele, simplesmente, não atingiu a imensa maioria do eleitorado, por lhe faltarem os ingredientes necessários a se tornar interessante. O mais óbvio: o que, exatamente, estava sendo imputado a Dilma na história toda? Se, há mais de ano, alguém violou o sigilo tributário de Verônica Serra e de outras pessoas ligadas ao PSDB, o que a candidata do PT tem a ver com isso? É culpa dela? Foi a seu mando? Em que sua candidatura se beneficiou?

A segunda razão tem a ver, provavelmente, com a dificuldade de convencer as pessoas que o episódio comprove o “aparelhamento do estado pelo PT” ou, nas palavras do candidato tucano, a “instrumentalização” do governo pelo partido. Será que é isso mesmo que ele revela?

Se a Receita Federal fosse “aparelhada” ou “instrumentalizada”, por que alguém, a mando do PT (ou da campanha), precisaria recorrer a um estratagema tão tosco? Por que se utilizaria dos serviços de um despachante, mancomunado com funcionários desonestos? Não seria muito mais rápido e barato acessar diretamente os dados de quem quer que seja?

Não se discute aqui se alguém quis montar um dossiê anti-Serra ou se ele chegou a existir. Sobre isso, sabemos duas coisas: 1) é prática corrente na política brasileira (e mundial) a busca de informações sobre adversários, que muitas vezes ultrapassa os limites legais; 2) o tal dossiê nunca foi usado. As vicissitudes da candidatura Serra ao longo da eleição não têm nada a ver com qualquer dossiê.

O próprio “escândalo” mostra que a Receita Federal possui sistemas que permitem constatar falhas de segurança, rastrear onde ocorrem e identificar responsáveis. É possível que, às vezes, alguém consiga driblá-los. No caso em apreço, não.

No mundo perfeito, a Receita é inexpugnável, não existem erros médicos na saúde pública, todos os professores são competentes, não há guardas de trânsito que aceitam uma “cervejinha”. Na vida real, nada disso é uma certeza.

Todos esperam que o governo faça o que deve fazer no episódio (e em todas as situações do gênero): investigue as falhas e puna os responsáveis. Ir além, fazendo dele um “escândalo eleitoral”, é outra coisa, que não convence, pelo que parece, a ninguém.

A força da TV

05/09/2010

A força da TV

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Hoje é o 20º dia de veiculação da propaganda eleitoral na televisão e no rádio. É quase a metade do total de 45 dias, que termina na antevéspera da eleição. Já dá para avaliar seu impacto inicial e estimar que efeitos poderá ter de agora em diante.

Nas pesquisas feitas em âmbito nacional e nos estados, vê-se que estas eleições confirmam o padrão de audiência que conhecíamos de outras. O chamado “programa eleitoral”, veiculado no início da tarde e à noite, está tendo uma audiência cativa relativamente pequena. Os comerciais, espalhados na grade das emissoras ao longo do dia, atingem contingentes muito maiores do eleitorado.

Embora nossos legisladores tenham escolhido faixas de horário em que aumenta a chance de alcançar um grande número de eleitores, a previsibilidade dos programas faz com que sejam vistos por um segmento bem particular do eleitorado: as pessoas que se interessam por política. Não é pelo fato de ser veiculados na hora em que as pessoas estão, na maior parte dos casos, almoçando ou jantando que eles despertariam a curiosidade dos desinteressados.

Chama atenção a diferença de assiduidade na audiência dos programas dos candidatos a presidente, governador e senador. A proporção de pessoas que diz ver os programas às terças, quintas e sábados, quando os presidenciáveis estão no ar, é quase o dobro da que vê os programas das segundas, quartas e sextas. Nesses dias, por sua vez, o costume é olhar com mais atenção o começo do horário, quando se apresentam os candidatos a governador, que o final, na hora dos senadores.

Existem três tipos de espectador desses programas, com tamanhos que variam em função da eleição. Nas presidenciais, 20% dos entrevistados são espectadores “habituais”, pois dizem vê-los “sempre ou quase sempre”. Outros 30% são “eventuais”, pois só os assistem “de vez em quando” ou “raramente”. Os 50% restantes são “não-espectadores’: simplesmente não os veem.

Importa pouco, para os eventuais e os não-espectadores, se o aparelho de televisão permanece ligado ou se estão no ambiente onde alguém assiste aos programas. São pessoas que não dão noticia do que está sendo veiculado, a não ser de maneira fragmentária.

Mesmo nos estados onde a cadeira de governador é objeto de disputa acirrada, a proporção de espectadores habituais dos programas dos candidatos ao cargo é menor. Na maior parte deles, não chega aos 15%. Os eventuais são 30%, o que quer dizer que perto de 60% dos eleitores não vê os candidatos a governador.

Mesmo com todas as ressalvas e excluindo os não-espectadores, é grande o número de pessoas que, toda noite, se senta na frente da TV para ver os programas. Somando parte dos habituais e alguns entre os eventuais, é provável que não menos que um quarto do eleitorado veja cada um.

A maioria, no entanto, só é alcançada pelas inserções. Na eleição dos prefeitos, rapidamente, pois apenas eles as têm. Nas gerais, mais lentamente, pois todos os candidatos, a todos os cargos, têm direito a elas. A grade fica mais concorrida.

Nestes primeiros 20 dias de propaganda, não tivemos viradas espetaculares ou “disparadas”, seja no plano federal, seja nas eleições de governador ou senador. Mas muita gente cresceu e alguns caíram, prenunciando mudanças para as próximas semanas.

Dilma continuou sua ascensão, com pequeno aumento da velocidade de crescimento. Ela manteve a tendência de ganhar intenções de voto entre indecisos e subiu mais um pouco tomando eleitores de Serra. Era o que se imaginava que aconteceria quando Lula fosse à televisão. O que vai além do esperado é quanto Serra caiu. Mesmo no comitê petista se calculava que seu mínimo era superior a 25%. Hoje, não se sabe.

Por enquanto, nas eleições para governador, a grande mudança acontece em Minas Gerais. É o único estado em que uma candidatura que parecia favorita já perdeu esse posto. Hélio Costa, apesar do apoio de Lula e do PT, viu sua vantagem de mais de 20 pontos desaparecer e está empatado com Antonio Anastasia, que tem o apoio de Aécio.

Mas não é apenas em Minas que as eleições de governador (e senador) ainda podem reservar surpresas. Em alguns estados, nas últimas semanas, ainda vai correr muita água por baixo da ponte. Na batalha paulista, por exemplo, o cenário está longe de definido. Em relação ao Senado, nem se fala. Há mais de 20 vagas em disputa aberta.

O dia seguinte

03/09/2010

O dia seguinte

Marcos Coimbra 3 de setembro de 2010

Como o 3 de outubro torna-se mais e mais previsível, é hora de começar a especular sobre como será o dia 4. Ele chega logo e é bom estar preparado para entendê-lo.

É fácil imaginar a alegria de Dilma Rousseff, Lula, o PT, seus aliados e o governo. Não custa sublinhar o caráter histórico da vitória que deverão comemorar.

E as oposições? Como viverão esse dia?

A primeira coisa a dizer é que sua provável derrota pode ser tudo, menos surpreendente. Se houve algo inesperado nestas eleições presidenciais foi seu empenho em colocar a cabeça no cadafalso. Nem se tivessem fixado a meta de fazer tudo errado teriam ido tão longe.

Parte da responsabilidade pelos seus erros pode ser debitada às pesquisas de opinião. Não a elas (coitadinhas), que nada são além de instrumentos. Mas à leitura superficial do que diziam.

Tudo o que estamos vivendo e que, parece, será confirmado no dia 3 se definiu entre setembro e outubro de 2009. Foi quando a vantagem de José Serra nas pesquisas levou a duas consequências.

Para o conjunto das oposições, seja no meio político, seja na imprensa e na sociedade, produziu a impressão de que Serra era invencível contra a candidata “artificial” que Lula tinha inventado. Para o próprio Serra, ela limitou drasticamente as opções. Se, do alto daqueles números, decidisse permanecer em São Paulo, seria como abdicar em definitivo de qualquer projeto presidencial. Até seus aliados na mídia deixaram claro que não aceitariam que fizesse outra coisa. Se recuasse, nunca mais o apoiariam.

Naqueles meses, quem leu alguns de nossos colunistas mais conhecidos ficou com a impressão de que o problema de Serra era Aécio Neves. Na hora que o mineiro aceitasse a “candidatura natural” e cerrasse fileiras, assumindo o lugar de vice, não haveria mais obstáculos entre Serra e o Planalto. Lula, o governo, e Dilma não seriam problema: as pesquisas (sempre elas) mostravam que a candidata de Lula “não decolava”.

A vantagem de Serra levou as oposições a outro equívoco grave. Como nenhum nome aparecia com pontuação relevante, elas se convenceram de que não precisavam de outros. Bastava Serra, com seus 45%. Mais candidatos, de outros partidos, seriam apenas um diversionismo. Elas se achavam tão fortes (em razão das pesquisas) que queriam ir logo para o confronto com Lula e Dilma.

Uma leitura estática e limitada das pesquisas conduziu as oposições àquilo que Lula tinha antecipado que fariam: viriam com Serra e apenas com Serra. O plebiscito que tinha imaginado como condição de sucesso para quem o representasse estava pronto. Seria Serra contra sua candidata.

Lula nunca fez a leitura ingênua que seus adversários fizeram das pesquisas. Para ele, era totalmente irrelevante saber de quantos pontos Dilma partia. Só o interessava o cálculo de onde ela poderia chegar. Enquanto o PSDB e alguns jornalistas versados em pesquisas faziam as contas de “quantos pontos Serra tem”, ele olhava para a frente.

Quando, em dezembro de 2009, Aécio resolveu sair da disputa pela vaga tucana, a crônica de 2010 começou a ser escrita. Mês a mês, semana a semana, dia a dia, tudo o que aconteceu de lá para cá pôde ser antecipado.

É pouco provável que o resultado da eleição fosse diferente se Dilma enfrentasse Aécio. Mas é certo que as oposições sairiam da eleição mais bem situadas para o futuro.

Confirmado o resultado esperado, será a morte política de uma geração de lideranças oposicionistas, que terá ido embora sem preparar novos quadros para as eleições de 2014 (e as seguintes).

O melhor que teriam feito era admitir que ninguém derrotaria Lula neste ano, e mirar nas próximas. Era hora de lançar rostos para o futuro: um candidato a presidente que não estivesse, irremediavelmente, preso ao passado e um vice que não fosse motivo de chacota.

Cometendo os erros que cometeram em 2010, as oposições adiaram seus projetos de retorno ao poder por tempo indeterminado. Bom para quem deseja que o PT chegue ao que os tucanos tanto almejaram (e não conseguiram por incompetência): permanecer no poder por 20 anos.

O que fazer com os nanicos?

01/09/2010

O que fazer com os nanicos?

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Nada melhor que considerar casos concretos para tornar mais claras algumas questões abstratas. Eles nos ajudam a entendê-las, trazendo-as para nossa experiência cotidiana.

Nossa legislação eleitoral é criticada por muitas pessoas e já existe quase um consenso de que é necessário mudá-la em profundidade. Seria ótimo se o presidente (mais provavelmente, a presidente) que estamos agora elegendo decidisse encampar a ideia, assumindo a iniciativa de provocar o Congresso para que não tardasse a discuti-la. É no começo dos governos, quando é máxima a força do Planalto, que essas coisas devem ser feitas.

Os problemas que ela apresenta são conhecidos por todos, mas é sempre surpreendente vê-los, na prática, outra vez. Alguns ficam especialmente visíveis apenas nesta época em que estamos, de reta final.

Um deles é o modo como ela trata os nanicos, nome que nosso vocabulário político adotou para designar os candidatos dos micro-partidos. Sem desmerecer nenhum deles, são, muitas vezes, representantes de partidos que só existem em nichos minúsculos da opinião pública, com base social insignificante.

Há países, como os Estados Unidos, com leis que permitem que partidos assim lancem candidatos a qualquer cargo, incluindo o de presidente da República. Outros, a maioria, são mais rigorosos. Os partidos precisam percorrer um caminho longo, com crescente desempenho, para funcionar normalmente e disputar todos os cargos.

Se o Judiciário não tivesse derrubado a legislação emanada do Congresso relativa à cláusula de barreira, não teríamos, já nestas eleições, muitas das legendas e alguns dos milhares de candidatos que disputam os diversos cargos. Como, no entanto, ficou consagrado o vale-tudo a respeito da representatividade partidária, estamos, de novo, às voltas com os nanicos.

Ficando apenas nas eleições presidenciais, temos os 3 “grandes” - Dilma, Serra e Marina – e mais 4 de partidos de extrema esquerda, dos quais o único com alguma performance apreciável é o PSOL. PSTU, PCO e PCB não têm sustentação relevante na sociedade. Falam para si mesmos e ninguém os ouve. Parece que se consideram “candidatos de atitude”, cumprindo um papel auto-atribuído de “vanguarda ideológica” (seja lá o que imaginam que isso seja).

Dois outros candidatos não se justificam em termos ideológicos. São figuras inexpressivas e algo cômicas, que reaparecem a cada eleição sem nenhuma finalidade, falando insignificâncias.

Faz parte da democracia a liberdade para que qualquer um possa defender suas ideias, mesmo que mais ninguém queira conhecê-las. Até o mais bizarro dos candidatos deve poder existir.

O que não se compreende é que tenhamos adotado uma legislação que permite a todos o acesso à propaganda eleitoral nos meios de comunicação de massa, obrigando o cidadão a vê-los quando se informa a respeito das eleições. Sua presença é antipedagógica e só faz aumentar a distância entre eleitores e sistema político.

Nossa legislação impede que o jornalismo das emissoras de televisão faça o que deveria fazer: dar mais espaço ao que é mais importante, àquilo que interessa. Em uma limitada e questionável interpretação do princípio da isonomia, exige que cada candidato (excluídos apenas os mais irrelevantes) tenha exatamente o mesmo tempo de cobertura.

Com isso, ao invés de aprofundar a cobertura das candidaturas que de fato estão na disputa, elas ficam restritas a um enfadonho acompanhamento do “dia a dia” dos candidatos”. Sem qualquer consequência, diga-se de passagem. Marina e Plínio estavam, em começos de agosto (quando se tornaram presença quase cotidiana nos telejornais de todas as emissoras), do mesmo tamanho que estão hoje: de modesto a nenhum.

Não é difícil dizer o que precisa ser feito. Na propaganda gratuita, simplesmente restringir o acesso aos candidatos de partidos representativos, dentro de critérios razoáveis. No jornalismo, adotar o que, perante situação semelhante, se tornou regra em alguns países. Voltando a falar nos Estados Unidos, lá os veículos podem invocar o princípio do “interesse jornalístico legítimo” para orientar sua cobertura das eleições. Os insatisfeitos podem recorrer à Justiça, mas, raramente, o fazem.

As Lições das Pesquisas

29/08/2010

As Lições das Pesquisas

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Os estudos que o professor Marcus Figueiredo e sua equipe estão fazendo sobre as pesquisas nas eleições presidenciais deste ano são importantes por várias razões. Sediados atualmente na UERJ (depois dos problemas pelos quais passou o Iuperj, a instituição à qual estavam vinculados) formam o grupo brasileiro mais especializado no assunto, com significativas contribuições para a avaliação e o desenvolvimento das pesquisas de opinião em nossa sociedade.

Seu núcleo, o Doxa – Laboratório de Pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública, acompanha, desde 2008, as pesquisas publicadas sobre a evolução das intenções de voto na sucessão de Lula. A base que utilizam são os trabalhos dos quatro institutos que divulgam resultados nacionais mais frequentemente.

O que tem maior regularidade é a Sensus, com as pesquisas que desenvolve para a Confederação Nacional dos Transportes. Dela é, portanto, a série mais completa ao longo do período. A seguir vem o Ibope, que tem um contrato de pesquisas trimestrais com a Confederação Nacional da Indústria. Datafolha e Vox Populi publicaram pesquisas intermitentes até o final do ano passado. Ao longo de 2010, todos divulgaram muitas.

Confirmando o que o Doxa já havia identificado nas eleições presidenciais depois da redemocratização, os quatro institutos fizeram um acompanhamento coerente da evolução das intenções de voto a partir de fevereiro de 2008, data do primeiro levantamento. As discrepâncias entre eles, que viraram assunto há alguns meses, não são relevantes.

Colocando lado a lado as pesquisas dos quatro, vemos uma linha de “evolução natural” da eleição de 2010. Já no final de 2008, quando eram 7 as pesquisas publicadas, percebia-se o sentido apontado pelos levantamentos: Dilma tendia a subir e Serra a cair.

Ao longo de 2009, foram divulgadas 14 pesquisas. O Doxa procurou a função matemática que mais se ajustava aos dados levantados pelos quatro institutos para os dois candidatos, com a qual podia estimar em que lugares estariam em pesquisas futuras (se, naturalmente, os motivos que os haviam levado àquelas posições não se alterassem). Essa função previa que as duas tendências se manteriam: crescimento de Dilma e queda de Serra. Ela havia começado o ano com 13% (segundo a Sensus) e terminado com 23% (segundo o Datafolha). Nas mesmas pesquisas, Serra foi de 43% a 37% e sua vantagem se reduziu à metade.

Em 2010, até 20 de agosto, foram publicadas 26 pesquisas dos quatro institutos. As estimativas feitas a partir dos dados de 2009 previam que Dilma ultrapassaria Serra entre o final de abril e o início de maio, que foi quando, segundo 5 pesquisas feitas naqueles dias, ela aconteceu. Previam que a candidata do PT continuaria a subir e que a distância entre ela e o candidato do PSDB cresceria, que foi o que todas apontaram.

Os quatro institutos foram coerentes entre si e seus resultados coerentes no tempo. Em outras palavras: cada novo resultado de um era coerente com os dos demais e com seus resultados anteriores. Era possível antecipar quase exatamente o que diriam as próximas a ser divulgadas, seja vendo as dos demais institutos, seja levando em conta a série de cada um.

Na reta final da campanha, os únicos resultados que fugiram do esperado foram as duas pesquisas de julho do Datafolha, com o empate entre Dilma e Serra. Já antes, em maio, no momento da ultrapassagem, o instituto havia captado mal o processo, corretamente percebido pela Vox e a Sensus, e, logo a seguir, pelo Ibope.

Mas o positivo é que todos, incluindo o Datafolha, voltaram a ser coerentes no final de agosto.

Salvo, então, um ou outro percalço de algum instituto, as pesquisas de opinião nos ajudaram a entender a eleição que estamos fazendo. O trabalho conjunto dos institutos traçou um retrato nítido: uma eleição sem sobressaltos, sem oscilações bruscas, marcada pela previsibilidade.

Seu ritmo foi ditado pela gradual difusão da informação sobre quem encarnava aquilo que a população desejava: a continuidade de um governo aprovado quase unanimemente, seja lá por quais razões. E o consequente crescimento da candidata que a representava.

As pesquisas, mesmo quando seus responsáveis torciam para que dissessem algo diferente, nunca deixaram de mostrar a mesma coisa: o favoritismo de Dilma, que agora ficou evidente para todos.

Pesquisas Polêmicas

25/08/2010

Pesquisas Polêmicas (Ou o vexame do Datafolha)

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Pesquisas nas quais não se pode confiar são um problema. Elas atrapalham o raciocínio. É melhor não ter pesquisa nenhuma que tê-las.

Ao contrário de elucidar e ajudar a tomada de decisões, confundem. Quem se baseia nelas, embora ache que faz a coisa certa, costuma meter os pés pelas mãos.

Isso acontece em todas as áreas em que são usadas. Nos estudos de mercado, dá para imaginar o prejuízo que causam? Se uma empresa se baseia em uma pesquisa discutível na hora de fazer um investimento, o custo em que incorre?

Na aplicação das pesquisas na política, temos o mesmo. Ainda mais nas eleições, onde o tempo corre depressa. Não dá para reparar os erros a que elas conduzem.

Pense-se o que seria a formulação de uma estratégia de campanha baseada em pesquisas de qualidade duvidosa. Por mais competente que fosse o candidato, por melhores que fossem suas propostas, uma candidatura mal posicionada não iria a lugar nenhum.

Com a comunicação é igual. Boas pesquisas são um insumo para a definição de linhas de comunicação que aumentam a percepção dos pontos fortes de uma candidatura e que explicam suas deficiências. As incertas podem fazer que um bom candidato se torne um perdedor.

E na imprensa? Nela, talvez mais que em qualquer outra área, essas pesquisas são danosas. Ao endossá-las, os veículos ficam em posição delicada.

Neste fim de semana, a Folha de São Paulo divulgou a pesquisa mais recente do Datafolha. Os problemas começaram na manchete, que se utilizava de uma expressão que os bons jornais aposentaram faz tempo: “Dilma dispara...”. “Dispara..”, “afunda...” são exemplos do que não se deve dizer na publicação de pesquisas. São expressões antigas, sensacionalistas.

Compreende-se, no entanto, a dificuldade do responsável pela primeira página. O que dizer de um resultado como aquele, senão que mostraria uma “disparada”?

Como explicar que Dilma tivesse crescido 18 pontos em 27 dias, saindo de uma desvantagem para Serra de um ponto, em 23 de julho, para 17 pontos de frente, em 20 de agosto? Que ganhasse 24 milhões de eleitores no período, à taxa de quase um milhão ao dia? Que crescesse 9 pontos em uma semana, entre 12 e 20 de agosto, apenas nela conquistando 12,5 milhões de novos eleitores?

O jornal explicou a “disparada” com uma hipótese fantasiosa: Dilma cresceu esses 9 pontos pelo “efeito televisão”. Três dias de propaganda eleitoral (nos quais a campanha Dilma teve dois programas e cinco inserções de 30 segundos em horário nobre), nunca teriam esse impacto, por tudo que conhecemos da história política brasileira.

Aliás, a própria pesquisa mostrou que Dilma tem mais potencial de crescimento entre quem não vê a propaganda eleitoral. Ou seja: a explicação fornecida pelo jornal não explica a “disparada” e ele não sabe a que atribuí-la. Usou a palavra preparando uma saída honrosa para o instituto, absolvendo-o com ela: foi tudo uma “disparada”.

É impossível explicar a “disparada” pela simples razão de que ela não aconteceu. Dilma só deu saltos espetaculares para quem não tinha conseguido perceber que sua candidatura já havia crescido. Ela já estava bem na frente antes de começar a televisão.

Mas as pesquisas problemáticas não são danosas apenas por que ensejam explicações inverossímeis. O pior é que elas podem ajudar a cristalizar preconceitos e estereótipos sobre o país que somos e o eleitorado que temos.

Ao afirmar que houve uma “disparada”, a pesquisa sugere uma volubilidade dos eleitores que só existe para quem acha que 12,5 milhões de pessoas decidiram votar em Dilma de supetão, ao vê-la alguns minutos na televisão. Que não acredita que elas chegaram a essa opção depois de um raciocínio adulto, do qual se pode discordar, mas que se deve respeitar. Que supõe que elas não sabiam o que fazer até aqueles dias e foram tocadas por uma varinha de condão.

Pesquisas controversas são inconvenientes até por isso: ao procurar legitimá-las, a emenda fica pior que o soneto. Mais fácil é admitir que fossem apenas ruins.

Estimativas para 3 de outubro

23/08/2010

Estimativas para 3 de outubro

Votos válidos: Marina Silva (e os pequenos) 11%, José Serra, 33%, Dilma Rousseff, 56%. Talvez seja arriscado fazer essa especulação. Talvez não

Do jeito como vão, as eleições presidenciais não devem nos reservar surpresas de reta final. Ao contrário. Salvo algo inusitado, elas logo adquirirão suas feições definitivas, talvez antes que cheguemos ao cabo da primeira quinzena de veiculação da propaganda eleitoral na tevê e no rádio.

Por várias razões, a provável vitória de Dilma Rousseff- em 3 de outubro será saudada como um resultado extraordinário. Ao que tudo indica, ela alcançará uma coisa que Lula não conseguiu nem quando disputou sua reeleição: vencer no primeiro turno. Não que levar a melhor dessa maneira seja fundamental, pois o próprio Lula mostrou ser possível ganhar apenas no segundo e se tornar o presidente mais querido de nossa história.

É preciso lembrar que Lula não a obteve em 2006 por pouco, apesar de sua imagem ainda sangrar com as feridas abertas pelo mensalão. Ele havia chegado aos últimos dias daquele setembro com vantagem suficiente para resolver tudo ali mesmo e só a perdeu quando sofreu um ataque sem precedentes de nossa “grande imprensa”.

Aproveitando-se do episódio dos “aloprados”, fazendo um carnaval de sua ausência no debate na Globo, ela balançou um eleitorado ainda traumatizado pelas denúncias de 2005. Lula deixou de vencer em 1º de outubro, o que, no fim das contas, terminou sendo ótimo para ele. No segundo turno, a vasta maioria da população concluiu o processo de sua absolvição, abrindo caminho para o que vimos de 2007 em diante: ele nunca mais caiu na aprovação popular e passou a bater um recorde de popularidade atrás de outro.

Com as pesquisas de agora, é difícil estimar com precisão quanto Dilma Rousseff poderá ter no voto válido. Não é impossível que alcance os 60% que Lula fez, no segundo turno, na última eleição. E ninguém estranharia se ela ultrapassasse os 54% que Fernando Henrique obteve em 1994, com o Plano Real e tudo.

Para fazer essas contas, é preciso levar em consideração diversos fatores. Um é quanto Marina Silva poderá alcançar, a partir dos cerca de 8% que tem hoje. Há quem imagine que ela ainda cresça, apesar do mísero tempo de televisão de que disporá. Com uma única inserção em horário nobre por semana e um tempo de programa praticamente idêntico ao dos candidatos pequenos, não é uma perspectiva fácil.
O segundo fator é o desempenho dos candidatos dos partidos menores, dos quais o mais relevante é Plínio de Arruda Sampaio. Muito mais que seus congêneres de extrema esquerda, ele pode se transformar em opção para a parcela de eleitores que vota de forma mais ideo-lógica ou que apenas quer expressar seu “protesto”. Embora as pesquisas a respeito desse tipo de eleitor não sejam conclusivas, isso pode, talvez, ocorrer em detrimento de Marina: à medida que Plínio subir, ela encolherá. O que não afetaria, portanto, o tamanho do eleitorado que não votará em Dilma ou Serra.

Para, então, projetar o tamanho da possível vitória de Dilma, o relevante é saber o piso de Serra. Se ele cairá, considerando seu patamar atual, próximo a 30%.

Só o mais otimista de seus partidários acredita (de verdade) que a presença de Lula na televisão será inútil para Dilma e que seu apelo direto ao eleitor não produzirá qualquer efeito. Ou seja, ninguém acredita que ela tenha já atingido seu teto, com os 45% que tem hoje.
O voto em Serra tem, no entanto, três fundamentos, todos, aparentemente, sólidos: 1. É um político respeitado no maior estado da federação, que governou, até outro dia, com larga aprovação. 2. Representa o eleitorado antipetista,- aquele que pode até tolerar Lula, mas que nunca votou e nunca votará no PT. 3. Tem uma imagem nacional positiva, conquistada ao longo da vida e, especialmente, quando foi ministro da Saúde. De São Paulo deve sair com 45% dos votos, o que equivale a 10% do País. O antipetismo lhe dá mais cerca de 10% e a admiração por sua biografia no restante do eleitorado, outro tanto (tudo em números redondos).

Se essas contas estiverem corretas, Serra teria pouco a perder nas próximas semanas. Em outras palavras, já estaria, agora, perto de seu mínimo.

Fica simples calcular o resultado que, hoje, parece mais provável para 3 de outubro: Serra, 30%; Marina e os pequenos, 10%; brancos e nulos, entre 8% e 10% (considerando o que foram em 2006 e 2002, depois da universalização da urna eletrônica); Dilma, entre 50% e um pouco menos que 55%. Nos válidos: Marina (e os pequenos) 11%, Serra 33%, Dilma 56%.

Talvez seja arriscado fazer essas especulações. Talvez não, considerando quão previsível está sendo esta eleição.

O tempo da decisão

22/08/2010

O tempo da decisão

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Popul

Os estudos internacionais de ciência política e sociologia do voto mostram que é sempre difícil generalizar a respeito do processo eleitoral, mesmo em países com longa experiência e tradição democrática. Mais complicado ainda naqueles como o Brasil, onde a realização de eleições amplas e livres só passou a ser regra nos últimos 25 anos.

Sobre como esse processo se dá entre nós, existem perguntas importantes cujas respostas não conhecemos, até pela ausência de um número razoável de casos comparáveis. Tudo, por exemplo, que se refere às eleições presidenciais tem como referência apenas as cinco que fizemos mais recentemente. As quatro únicas que havíamos realizado entre a Proclamação da República e 1964 ficaram tão distantes que já não nos ajudam a entender o presente.

Uma dessas questões é sobre quando se pode ser considerar que uma eleição está “resolvida”. Não no sentido de quando seu resultado se torna inexorável, pois isso, é óbvio, só acontece no momento em que o eleitorado vota. Até lá, temos que admitir que mudanças possam ocorrer, mesmo que sua chance seja pequena. Mas no de quando, pelo que se conhece do comportamento dos eleitores, elas adquirirem suas feições mais prováveis, aquelas que só se alteram se algo de extraordinário suceder.

Essa é uma pergunta que passou a ser cabível depois que as pesquisas de opinião se tornaram parte de nossa realidade política. Antes, as pessoas especulavam sobre o que achavam que aconteceria baseadas em seu “faro”, sua “sensibilidade”. Era como adivinhar o sexo dos bebês pela forma do ventre da mãe, em que se podia acertar, mas com chances pouco maiores que 50%, taxa que as pesquisas (embora longe de fornecer certezas) costumam ultrapassar de longe.

As eleições se resolvem quando uma maioria suficiente do eleitorado se decide por uma candidatura. À medida que transcorrem, as pessoas vão tomando contato com as opções existentes, até se fixar naquela que mais perto está do que desejam. Para algumas, é um processo simples: basta conhecer quem representa “seu lado”, seu partido. Eleitores com alto nível de identificação partidária raramente requerem mais que isso para se decidir.

Essa, no entanto, não é a regra geral. Quem não tem (ou tem baixa) identidade político-partidária precisa saber mais sobre os candidatos. Quanto é que são elas. Ninguém sabe ao certo qual é a quantidade de informação que cada tipo de eleitor necessita para se decidir. Por consequência, ninguém é capaz de dizer quando a maioria do eleitorado resolve o que vai fazer.

Uma hipótese que parece provável é que isso depende da eleição e do sentimento das pessoas a respeito do governo que se encerra. Se o sistema político oferece ao cidadão um cardápio com poucas opções, o tempo se reduz, pois ele só tem que resolver se prefere fulano ou beltrano. Se forem muitas, a decisão se complica e mais tempo pode ser necessário.

Toda vez que o eleitor não está satisfeito com o governo, é lógico esperar que procure a mudança. Inversamente, quando gosta dele, que pense em continuidade. Se tiver elevado apreço pelo governo, quer que o seguinte seja o mais parecido com o cessante quanto possível (o que é máximo quando se pode reeleger o titular).

Quando as pessoas querem mudanças e o número de candidatos é grande, os eleitores precisam ter mais tempo para se decidir. Afinal, são várias as possibilidades de mudar e é preciso compará-las.

Quando querem continuidade e as candidaturas são poucas, tudo fica mais simples. Na hora que percebem quem representa melhor seu desejo, elas se decidem. Para elas, a eleição se resolve.

Nas eleições deste ano, a disseminação da informação de que Dilma é a candidata de Lula foi lenta, mas constante. Suas intenções de voto cresceram do mesmo modo, sem sobes e desces, enquanto aumentava o número de pessoas que a identificavam com Lula e a continuidade.

A eleição está resolvida? Para um contingente muito grande do eleitorado, tudo indica que sim. Mas, como aconselha a prudência, é bom lembrar que a eleição só acaba quando termina.

Mitos e verdades sobre as pesquisas

18/08/2010

Mitos e verdades sobre as pesquisas

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

De agora ao início de outubro, a mídia vai bombardear a opinião pública com pesquisas, uma atrás da outra. No começo, teremos pesquisas novas quase diariamente. Adiante, mais de uma ao dia. Na última semana, muitas. Quem não tomar cuidado, pode se confundir.

É uma boa hora para revisitar certos mitos sobre as pesquisas e discutir idéias que parecem certas, mas que escondem equívocos. Há coisas que se dizem para ajudar o cidadão a compreendê-las, mas que só atrapalham.

Quase todo mundo desconfia de que seja possível apontar o que pensa o eleitorado brasileiro a partir de amostras que raramente passam de 2,5 mil entrevistados. Somos mais de 135 milhões de pessoas aptas a votar, e é difícil imaginar que uma amostra que não chega a 20 milionésimos do universo o retrate adequadamente.

Outra coisa que confunde é ver que 2,5 mil entrevistas servem para que os institutos falem tanto do Brasil, quanto de um estado ou cidade. É intuitivo supor que, à medida que aumenta o tamanho do universo, deveria aumentar o tamanho da amostra. Se 2,5 mil são necessárias para representar, por exemplo, a cidade de São Paulo, muito mais seria exigido para falar do estado ou do país.

Os pesquisadores costumam responder a essas dúvidas com a analogia da sopa: uma colher basta para testar seu gosto, não sendo necessário tomar a panela inteira. Mais ainda: não interessa se são 10,100 ou 1000 litros de sopa. Uma colher continua bastando.

É uma analogia que parece boa, mas que é limitada. Ao contrário da sopa, que é igual em qualquer lugar da panela de onde se tire uma colherada, o eleitorado não é homogêneo. Ou seja, nem toda colherada o representa bem.

Prosseguindo com as analogias gastronômicas, seria melhor dizer que as amostras devem ser como o prato que o freguês de um restaurante de comida a quilo monta quando quer conhecê-lo: uma colherada de cada tipo de alimento, sem exagerar em nenhum. Se só colocar macarrão ou se não provar nenhuma sobremesa, como poderia avaliar o cardápio inteiro?

As discrepâncias entre as pesquisas, que ficaram visíveis em diversas oportunidades ao longo do ano, resultam, principalmente, de diferenças na amostragem. Há institutos que incluem todos os segmentos do eleitorado em suas amostras e outros que não. Aqueles que, por exemplo, só entrevistam eleitores que possuem telefone e que não ouvem quem mora em áreas rurais.

Outra ideia comum sobre as pesquisas é que elas são “fotografias de momento”, sem capacidade explicativa ou preditiva. Em parte, é uma banalidade, uma verdade acaciana. Em parte, uma confissão de incompetência.

Quando, por exemplo, um lugar está no meio da neblina, o melhor fotógrafo, mesmo se usar a melhor câmera, só conseguirá uma imagem borrada. Não importa a lente, ela não ficará nítida. Mas isso, ainda bem, não é o mais frequente.

Imaginemos a fotografia de um automóvel, no meio de uma estrada, com as janelas fechadas e um vulto ao volante. À frente, um precipício. Tudo sugere que, se o carro estiver em movimento (como parece) e se não mudar a rota, vai cair. Com apenas essa foto, qualquer um suspeita que um desastre é iminente.

E se houver uma segunda, mostrando que o carro avançou, aproximando-se 10 metros do abismo? E outra, com uma distância ainda menor? E mais outra?

Pesquisas só são fotografias estáticas se não as conseguirmos entender. Com a vasta informação de que dispomos, é perfeitamente possível falar, com base nelas, sobre o que tende a ocorrer em uma eleição.

Ceticismos (“nunca fui entrevistado e não conheço ninguém que tenha sido”), perplexidades (“como é possível falar de todo o Brasil com tão poucas entrevistas?”) e falsas noções (“pesquisas são retratos do passado, que nada dizem sobre o futuro”) são comuns sobre as pesquisas. Mas elas são um elemento central na cultura política moderna. Bom seria se todos conseguíssemos utilizá-las corretamente (sem querer delas nem demais, nem de menos), em escolhas tão importantes quanto as que faremos no dia 3 de outubro.

Os fatos novos

15/08/2010

Os fatos novos

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Popul

Começa, nesta terça feira, a etapa final das eleições, com a propaganda eleitoral chegando à televisão e ao rádio. Serão 45 dias decisivos até 3 de outubro, quando, pelo que parece, quase todas terminarão.

Nas legislativas, por que é em um só turno que elas se resolvem. Para o Executivo, por que o sistema político ofereceu aos eleitores, no plano federal e na maior parte dos estados, um cardápio limitado. Como, raramente, são mais que dois candidatos competitivos, muitas não irão para o segundo turno.

Não que isso vá fazer diferença no futuro. No longo prazo, tanto faz ganhar no primeiro ou no segundo. Os mandatos não são mais legítimos ou mais sólidos se a eleição foi de uma só vez ou se houve outra “vuelta”, como se diz em espanhol. Já tivemos presidentes e governadores eleitos das duas maneiras, sem que isso fosse relevante. Fernando Henrique, por exemplo, ganhou em 1998 no primeiro turno e viveu quatro anos complicados, nos quais sua avaliação caiu sem parar. Lula, que teve que disputar o segundo turno em 2006, governou sem problemas e sua popularidade sempre subiu.

Nas pesquisas, os candidatos que estão atualmente na frente também lideram nos cenários de segundo turno, seja no plano federal, seja nos estados. É isso mesmo que costuma acontecer na urna: quem vence o primeiro, tende a vencer o segundo, salvo nas exceções de praxe. Já as tivemos em várias eleições estaduais, quase sempre explicadas pela rejeição ao candidato que ganhou o primeiro.

Nas eleições presidenciais, no entanto, até agora não houve um candidato que fosse o mais votado no primeiro turno e perdesse no segundo. Tirando as duas vitórias de FHC, isso não aconteceu com Collor ou Lula. Ninguém venceu de virada. Também não tivemos, desde a redemocratização, a derrota de um candidato que chegasse à reta final na liderança das pesquisas. Nas cinco eleições presidenciais que fizemos, sempre terminou vencendo quem estava em primeiro lugar. Houve trocas entre o segundo e o terceiro (Lula e Brizola, em 1989, Serra e Ciro, em 2002) ou entre o terceiro e o quarto (Enéas com Quércia, em 1994), mas nunca uma reviravolta que desse a vitória a quem estava em segundo lugar.

A explicação mais provável desse padrão de resultados finais pouco surpreendentes é a tendência da maioria dos eleitores de definir cedo seu voto para presidente. Na verdade, o mais cedo que a pessoa consegue. Depois que conhece os candidatos e escolhe, sua decisão só muda se algo de extraordinário ocorrer.

O caso mais emblemático de mudança de “última hora” em uma eleição presidencial aconteceu em 1994. Até o final de junho, Lula liderava em todos os cenários, com 30 pontos de vantagem sobre Fernando Henrique. Aí, um míssil chamado Plano Real caiu do céu e estilhaçou a candidatura petista. Em pouco mais que dois meses, o quadro se inverteu e o tucano chegou à vitória (no primeiro turno).

Mas essa história mostra quão forte tem que ser uma alteração de cenário para tirar do trilho uma eleição presidencial. Nenhuma das outras foi assim. O desfecho de todas se tornou previsível bem antes. As urnas sempre confirmaram o favoritismo de quem estava na frente nas pesquisas.

Ou seja, não existem “fatos novos” que mudem uma eleição presidencial na undécima hora. Pelo menos, não existiram, até agora, em nossa trajetória.

Dois tipos de pessoas ficam inconformados com essa previsibilidade. De um lado, quem não gosta do candidato que lidera e quer que ele (ou ela) perca. Imaginando que, na ausência de “fatos novos”, seu preferido será derrotado, fica à procura deles, torcendo para que apareçam. Reza para que os debates, as entrevistas na televisão, um escorregão, uma declaração polêmica, sacudam tudo e mudem as tendências que estão em curso.

De outro, os jornalistas. Existe coisa mais aborrecida que repetir a mesma manchete todo dia, dizendo que tudo está igual? Que a eleição continua tão previsível hoje quanto há meses? A imprensa precisa de notícias, de preferência surpreendentes. Sem “fatos novos”, fazer o jornal é mais difícil. Por isso, os jornalistas os amam.

E os jornalistas que não querem a vitória de quem está na frente? E as empresas de comunicação que têm simpatias por quem está em segundo ou terceiro? Aí, se os fatos novos teimam em não surgir, a tentação de criá-los é grande.

Inutilmente, pelo que conhecemos de nossas eleições presidenciais anteriores. Quando a maioria do eleitorado cisma que vai votar em alguém, não há “fato novo” que a mova. É como fogo de morro acima. Ou água de morro abaixo.

Primeiro Turno?

11/08/2010

Primeiro Turno?

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

A cada momento, as eleições suscitam perguntas diferentes. Já foram várias: Dilma decolará? Serra será candidato? Marina vai empolgar? Quanto de sua popularidade Lula conseguirá transferir?

A mais nova e interessante diz respeito a um cenário que muitos consideravam impensável há pouco tempo: será que Dilma vai ganhar no primeiro turno?

Algumas pessoas acham que apenas formular essa pergunta é tomar partido de Dilma, querer que ela vença ou torcer por ela. São os que supõem que a hipótese é tão absurda que só faria sentido na cabeça de um “dilmista”.

Na verdade, não. São cada vez mais numerosos os analistas que trabalham com essa possibilidade. Até quem sempre raciocinou unicamente com a situação inversa, de Serra vencer no primeiro turno, hoje admite que ela exista e que está se tornando a cada dia mais provável.

Já faz tempo, no entanto, que as pesquisas permitiam antevê-la. A rigor, desde o final do ano passado, quando Serra ainda estava com folgada dianteira. Bastava levar em conta o que diziam as pessoas que conseguiam estabelecer a ligação entre Dilma e Lula.

Entre os que sabiam que ela era a candidata do presidente, a liderança do ex-governador desaparecia e os dois ficavam com a mesma intenção de voto. Mas, ao considerar o perfil socioeconômico dos que não sabiam, via-se que ela tinha grande potencial de crescimento, bastando, para isso, que a informação aumentasse e alcançasse os segmentos mais propensos a votar em seu nome.

De dezembro em diante, as pesquisas foram mostrando que, a cada ponto que subia o conhecimento de que ela era a candidata de Lula, aumentavam suas intenções de voto. Ou seja, embora Serra continuasse liderando, sua vantagem era frágil, pois se sustentava em algo que a campanha eleitoral se encarregaria de alterar. Era a desinformação que lhe dava vantagem, e essa tenderia a desaparecer à medida que a eleição se avizinhasse.

Lula fez o que estava ao seu alcance para que cada vez mais pessoas identificassem Dilma como sua candidata. Levou-a a todos os palanques, convidou-a para inaugurações e solenidades, viajou com ela Brasil afora. Mas foi a imprensa quem mais contribuiu para que seu objetivo - universalizar a informação de que ele a apoiava - fosse sendo progressivamente atingido.

Em 2010, fora seus discursos para as platéias reunidas nesses eventos, Lula só se dirigiu diretamente ao conjunto dos eleitores para falar em Dilma uma vez: quando estrelou os comerciais e o programa partidário do PT em maio. Apenas nessa oportunidade usou uma mídia de massa para falar olhando nos olhos do eleitor e pedir seu voto.

Hoje, cerca de 80% dos eleitores são capazes de associar Dilma a Lula, mas menos de 25% dizem conhecê-la bem. Faltam 20% que sequer a conhecem e há uma larga fatia que somente sabe seu nome.

Engana-se quem olha seus atuais 40% de intenções de voto como teto. Ela chegou a esse patamar através de um processo de difusão da informação que alcançou o eleitor popular fundamentalmente através do chamado “boca a boca”. Nele, a bem dizer, a televisão foi apenas coadjuvante.

Quando, a partir da semana que vem, a propaganda eleitoral começar e Lula passar a aparecer diariamente no programa e nos comerciais na TV e no rádio, Dilma deverá entrar em uma nova etapa de crescimento. Até onde irá, é difícil dizer.

Como as perspectivas de crescimento de Serra são reduzidas, a esperança de quem quer dois turnos se deslocou para Marina e os pequenos candidatos. Mas a mídia que terão é tão exígua (Marina, por exemplo, disporá de um único comercial em horário nobre por semana) que é pouco provável que sejam sequer percebidos pela maioria do eleitorado.

É por essas (e outras) que quem entende de eleição cada vez mais considera possível a vitória, em primeiro turno, da candidata de Lula.

O Primeiro debate

08/08/2010

O Primeiro debate

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Popul

Em uma das eleições presidenciais mais previsíveis que fizemos no Brasil moderno, o que esperar do primeiro debate entre os candidatos na televisão? Que fosse ... previsível, tanto quanto o que a Bandeirantes realizou quinta feira. Nele, tudo que se imaginava aconteceu.

Era previsível uma baixa audiência, e foi o que tivemos. Pelos números preliminares disponíveis, o pico de audiência alcançou pouco mais que 5% na Grande São Paulo e dificilmente terá sido maior no conjunto do país. Para deixar dramaticamente claro quão pequeno é o interesse do telespectador médio por programas de conteúdo político, na abertura do debate a emissora perdeu metade da audiência. “Polícia 24 horas” terminou com 6% e o encontro dos presidenciáveis começou com 3%. Mais adiante, a proporção de televisores sintonizados caiu a pouco mais que 1%.

Era previsível que esse debate fosse tratado como um episódio na guerra entre as emissoras e foi o que elas fizeram. Enquanto não mudarmos nosso modelo, em que cada uma faz o “seu debate”, é isso que sempre teremos. Faz sentido o que está combinado para este ano, em que os candidatos irão a todas, apenas por que essa é a conveniência delas? Será que um dia chegaremos ao bom senso de ter debates em rede, como os americanos, onde a competição entre as emissoras é mais acirrada que aqui? Espremido entre o futebol de uma e a habitual profusão de programas “populares” das outras, o debate foi o perdedor na batalha pela audiência noturna da quinta feira.

Era previsível que os abnegados que fossem assisti-lo (especialmente os poucos que ficaram até o fim, depois da meia noite) tivessem características bem diferentes do eleitor comum. As pesquisas sobre o perfil da audiência não estão concluídas, mas é fácil apostar no que mostrarão, pois é o que acontece no mundo inteiro: que terão visto o debate eleitores de escolaridade e renda mais elevadas, mais velhos e predominantemente do gênero masculino. Mas o fundamental é que terão sido pessoas de interesse significativamente mais alto por questões políticas, mais informadas, mais atentas ao cotidiano do processo eleitoral e mais curiosas a respeito dos candidatos.

São pessoas que costumam ter identidades políticas e/ou partidárias estruturadas e fundamentadas, e que, em função disso, se decidem precocemente. Para elas, a eleição começa cedo, os prós e os contras dos candidatos são logo avaliados e a dúvidas sobre o que fazer no dia da eleição mínimas.

Quem vê com atenção um debate como esse, em um horário como aquele, já decidiu se vota Dilma, Serra ou Marina, ou se não vota em nenhum dos três. Por seu interesse e informação, é uma pessoa que, tendo chegado a uma escolha, não a muda por impulso, talvez como fizesse outra para quem a questão fosse menos importante. Para ela, o escorregão, a gafe, o gaguejo de um candidato são irrelevantes: não fazem com que deixe de votar no candidato escolhido ou que opte por um em quem havia decidido não votar. Ela ri das dificuldades dos adversários do “seu candidato”, mesmo que se incomode com os deslizes que ele ou ela cometem.

Era previsível que não fosse um debate acalorado e emocionante, cheio de tiradas espirituosas e de eloquências. Quem conhece os candidatos que temos não esperava que eles repetissem o que antigos mestres faziam em situações parecidas. Nenhum é um Brizola e isso estava nítido.

Era previsível que o nervosismo afetasse de maneira diferente os candidatos e foi o que as câmeras mostraram. Serra, no seu enésimo debate, era o mais à vontade, tanto quanto pode estar alguém cujas perspectivas se tornam, a cada dia, mais preocupantes. As estreantes Dilma e Marina (pois não se pode considerar que a experiência anterior da senadora a tivesse preparado para uma noite como aquela) estavam mais tensas. Quanto a Plínio de Arruda Sampaio, sua posição era a que se espera de quem nada tem a perder. De todas, a mais confortável.

Deixando de lado as avaliações dos torcedores (pois quem tem simpatia por uma candidatura sempre diz que seu candidato foi superior aos demais), é quase consensual a opinião de que ninguém “ganhou o debate”. Superado um primeiro momento visivelmente favorável a Serra, Marina e Dilma se equilibraram e empataram com ele, indo assim até o final. Quem viu, com alguma isenção, mais que o primeiro bloco dificilmente dirá que houve perdedores e ganhadores.

Se essa impressão de jornalistas e profissionais for confirmada pelas pesquisas de impacto - direto e secundário- na opinião pública, quem talvez mais tenha lucrado foi Dilma. Não perder é um bom resultado para quem está na frente. Adicionalmente, adquiriu experiência para os próximos, aumentando sua autoconfiança, que é o que mais conta para um bom desempenho neles.

Serra e Marina é que têm que reverter as tendências que estão em curso. Para ambos, o debate da Bandeirantes não foi ruim, mas não foi tão bom quanto desejariam (ou precisariam).

Lula e Dilma

06/08/2010

Lula e Dilma

Quem acha que a candidata não passa de 40% esquece que o presidente a pôs nesse patamar somente falando dela, sem olhar nos olhos do eleitor e pedir seu voto

Uma das coisas engraçadas destas eleições é observar a mudança nos cálculos da oposição sobre o “poder de transferência” de Lula. Já faz mais de um ano que eles são feitos e refeitos, sempre corrigindo para cima a estimativa anterior. Agora, às vésperas do começo da última etapa, com as campanhas chegando à televisão, eles voltaram a mudar, outra vez em sentido ascendente.

Ainda em 2009, não havia quem, nos partidos de oposição, achasse que a aposta de Lula ao indicar Dilma Rousseff daria certo. Além do que entendiam ser suas dificuldades próprias – inexperiência eleitoral, falta de carisma, pouca visibilidade de seu papel no governo (para ficar apenas com as mais citadas) – haveria um limite à transferência de votos de Lula para ela.

Ninguém jamais discutiu que Dilma Rousseff precisaria desses votos. Uma candidata nova, que nunca disputara um cargo importante, sem qualquer notoriedade fora da área técnica do governo, só por milagre alcançaria votação sequer perceptível em uma eleição nacional.

Veja-se, para ilustrar, o que aconteceu com Aécio Neves na pré-campanha. Apesar de ser o governador reeleito (e bem avaliado) do segundo maior colégio eleitoral do País, mal alcançava 20% quando teve de desistir, exatamente por lhe faltar maior volume de intenções de voto.

Mesmo sendo Dilma a candidata do PT, de longe o partido com o maior número de filiados e simpatizantes, -suas perspectivas continuavam baixas. O PT, sozinho, seria insuficiente para elegê-la.

Ou seja, para se tornar competitiva diante de José Serra e poder derrotá-lo, Dilma precisava de Lula. Ela sabia disso, ele também, assim como a torcida do Flamengo (e a de todos os seus adversários).

Mas quantos seriam os votos que ele conseguiria repassar? Apesar de sua popularidade e simpatia, não haveria um limite a essa transferência?

Durante o ano passado, quem torcia por Serra, seja no meio político, seja na sociedade civil, escolheu a taxa de 20% como o teto onde a transferência de Lula poderia ir. Até a alcançar, Dilma cresceria sem problemas. Em lá chegando, empacaria. Lula a poria no patamar de 20%, mas, para ultrapassá-lo, a bola estaria com ela. Sozinha, sem bagagem política, seria presa fácil do candidato do PSDB.

Essa proporção não foi inventada, pois se baseava nas respostas de entrevistados nas pesquisas a perguntas sobre sua propensão a votar em “quem quer que fosse o candidato indicado por Lula”. Embora variasse um pouco, conforme o momento e a pesquisa era mesmo isso que diziam as pessoas.

O equívoco foi, no entanto, confundir piso com teto. Os 20% não eram o máximo, mas o mínimo que Lula, sem fazer mais nada, daria a ela.

Ela os superou ainda em outubro de 2009, jogando fora os prognósticos peremptórios que ouvíamos até de especialistas conhecidos. Fixaram, então, uma nova barreira em 30%, e garantiram que, deles, ela não passaria. Coisa que fez em março e continuou subindo. A essa altura, indo cada vez mais além do segmento do eleitorado que votaria de olhos fechados em quem Lula indicasse.

Na última semana de julho, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso reviu as contas e fixou um novo limite. Para ele, depois de “Lula ter transferido para sua candidata 35% a 40% dos votos”, alcançou “um teto”. Agora, finalmente, segundo o ex-presidente, Dilma Rousseff pararia de crescer.
Quem garante isso? De onde vem a convicção, considerando que ela, nos 40% atuais, já está a um passo de ganhar no primeiro turno?

Quem acha que ela não cresce mais deve imaginar que a presença diária de Lula na televisão, depois do dia 17 próximo, não terá qualquer efeito. Que os 85% que o aprovam, os 75% que acham ótimo ou bom seu governo, os muitos que gostam dele e o admiram ficarão indiferentes à sua presença. Que se decepcionarão todos aqueles que só esperam conhecer um pouco a candidata que ele apoia.

Quem acha que ela não passa de 40% esquece que Lula a pôs nesse patamar quase que somente falando nela, sem olhar nos olhos do eleitor e pedir seu voto, salvo a meia dúzia de vezes em que usou o tempo de propaganda de seu partido.

Quem acha que ela não passa de 40% pode se preparar. Vai, provavelmente, ter uma surpresa.

As pesquisas públicas

04/08/2010

As pesquisas públicas

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Quando escrevem sobre pesquisas, alguns jornalistas mostram não conhecer bem o papel que elas têm hoje nas campanhas políticas. Curioso é que mesmo profissionais tarimbados costumam revelar esse desconhecimento e não apenas os jovens repórteres no início de carreira.

Em momentos iguais a este, de aproximação das eleições, veem-se exemplos disso a toda hora. Como saem pesquisas com muita frequência, a imprensa está sempre cheia de matérias que as citam, nas quais se percebe a desinformação de seus autores sobre o que acontece no quartel-general das candidaturas.

Não são todas as campanhas que conseguem, mas todas que podem montam sistemas de acompanhamento dos humores do eleitorado através de pesquisas. À medida que aumenta a importância do cargo em disputa e sobe a capacidade de arrecadação, maior é o arsenal de pesquisas próprias que mandam realizar, para uso de coordenadores e estrategistas.

Faz tempo que as pesquisas quantitativas de intenção de voto se tornaram apenas o pedaço visível desses projetos, pois eles envolvem inúmeros outros levantamentos cujos resultados não são divulgados ou comentados. Ou seja: o que se vê é somente a ponta de um iceberg, cuja parte maior permanece submersa.

No mundo real das campanhas, grande destaque é dado às pesquisas qualitativas, indispensáveis à formulação de estratégias de comunicação. São elas que permitem entender as razões e motivos dos eleitores, por que preferem um candidato em detrimento de outros, o que esperam da eleição, o que não sabem e gostariam de saber dos candidatos. Os marqueteiros costumam olhá-las com mais interesse que os resultados das quantitativas, cujo objetivo é medir quantos pensam de uma maneira ou de outra, bem como identificar que variações existem entre os segmentos (socioeconômicos ou geográficos) do eleitorado.

As campanhas de Serra e de Dilma estão fazendo pesquisas desde muito antes do lançamento oficial das candidaturas. Seus partidos têm o hábito de pesquisar, possuem institutos que tradicionalmente lhes prestam serviços e contam com especialistas, internos e de fora de seus quadros, para assessorá-los em sua análise. A esta altura do processo eleitoral, já fizeram alguns (muitos) milhares de entrevistas e (várias) dezenas de discussões em grupo, a técnica qualitativa mais empregada. Ambos têm em mãos longas séries de pesquisas em todo o país, estado por estado, sempre usando questionários mais elaborados e detalhados que aqueles que se veem na imprensa. De agora em diante, na reta final, essa massa de dados vai aumentar exponencialmente.

Além da parafernália de pesquisas próprias, as duas campanhas têm acesso a dezenas de outras, feitas por correligionários e aliados nos estados, por entidades de classe e empresas do setor privado. Não deve haver um só dia em que não chegue aos comitês uma pesquisa nova.

Faz algum sentido imaginar que campanhas assim organizadas e tão bem abastecidas tenham que esperar a divulgação de pesquisas públicas para tomar qualquer decisão relevante? Que as equipes de Serra e Dilma fiquem roendo as unhas na frente da televisão para saber quem está na frente e quem atrás? Que só resolvam o que vão fazer depois de ler no jornal o que disse uma pesquisa?

Pelo que escrevem alguns jornalistas, pareceria que sim. Seus textos dizem coisas como “antes da pesquisa do Ibope, Serra ia fazer....”, “agora com o Datafolha, Dilma decidiu....”, o que equivale a supor que os candidatos foram inteirados de algo pela imprensa. Que o vasto investimento de suas campanhas em pesquisas próprias é inútil, pois o que contaria seriam as pesquisas hípicas (as que mostram quais cavalinhos estão na frente) que todos conhecem.

Nas disputas eleitorais, as pesquisas publicadas são irrelevantes como instrumentos de informação estratégica, pois as campanhas grandes (e seus apoiadores) sabem muitíssimo mais que aquilo que chega à imprensa e ao cidadão comum. O que não quer dizer que sejam irrelevantes na guerra da comunicação, pois estar publicamente na frente é melhor que estar atrás e isso pode trazer diversas vantagens a quem lidera.

Propaganda Eleitoral na TV

01/08/2010

Propaganda Eleitoral na TV

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Daqui a 15 dias, começa a última e decisiva etapa das eleições. No caso das presidenciais, as mais longas que fizemos em nossa historia. É nelas que o sistema político pensa obsessivamente há mais de dois anos (desde, pelo menos, o início de 2008), por obra e graça de Lula.

As demais eleições estão sendo das mais atrasadas de que temos memória. Na maior parte dos estados, o nível de definição dos eleitores a respeito do voto para governador é muito baixo. Para o Senado, baixíssimo. Nas proporcionais, então, nem é bom falar: mais de 95% dos eleitores têm, no máximo, apenas uma vaga noção do que farão.

Com sua mania de aguardar a “hora certa”, nossa legislação eleitoral é a principal responsável pelo que vai acontecer de 17 de agosto a 3 de outubro. Nesses últimos 45 dias, todos que ainda não sabem em quem votar para os 6 cargos em disputa (presidente, governador, dois senadores, deputado federal e estadual) terão que correr à procura de informações. Quantos conseguirão obtê-las em espaço de tempo tão curto? Quantos terão condições de conhecer adequadamente os candidatos relevantes?

É verdade que as campanhas já começaram faz quase um mês, em 6 de julho. Comícios, passeatas, carros de som, foram liberados e vêm sendo usados pelos candidatos país afora. Mas seu impacto é diminuto.

Quem o quiser avaliar basta que considere o que mudou nas pesquisas do final de junho até agora: praticamente nada. Seja nas eleições presidenciais, seja nas outras, os últimos 30 dias foram de estabilidade quase completa. Ninguém subiu, ninguém caiu, o que permite ver quão inócua é essa etapa intermediária, que vai do fim da “pré-campanha” ao início da televisão.

Se pensarmos nas restrições a que essas mídias foram submetidas, não é difícil entender por quê. No afã de responder aos anseios generalizados por moralização que vieram depois do mensalão, nossas elites fizeram mudanças perfunctórias na legislação para reduzir gastos de campanha, achando que conteriam a arrecadação irregular ao colocar obstáculos às despesas. Com isso, sumiram os artistas e animadores, e os comícios foram esvaziados. Acabaram as camisetas, que tanta gente usava. Os outdoors diminuíram de tamanho e viraram pequenas placas padronizadas. Faixas e cartazes desapareceram. Até a pintura de muros foi severamente disciplinada.

Muitas dessas limitações foram positivas, pois reduziram o assédio exorbitante dos candidatos e contribuíram para a limpeza das cidades. Mas acabaram por aumentar o que era já grande: a influência da televisão, que se tornou ainda mais preponderante.

Ou seja: é cada vez maior a proporção de eleitores que chega aos 45 dias finais com sua “cola eleitoral” quase vazia. Dos 6 nomes, sabe um, dois e olhe lá.

Para agravar as dificuldades, nossa legislação coloca mais uma barreira à sua frente. Nesses últimos dias, ou o eleitor se senta diante da televisão por intermináveis 50 minutos na hora do almoço e do jantar ou torce para ter a sorte de ver uma inserção enquanto assiste a seus programas prediletos. As campanhas chegam (finalmente) à sua casa, mas dessa maneira: 100 minutos/dia de “programas eleitorais” contra 30 de comerciais.

Esses são divididos em 5 “partes” de 6 minutos (uma para cada cargo), e são distribuídos em 4 blocos de audiência (manhã, tarde, horário nobre e noite). Fazendo as contas: Dilma e Serra terão cerca de um comercial ao dia em horário nobre por emissora (ela todo dia, ele nem sempre), Marina um por semana e os menores, provavelmente, nenhum. Nas eleições estaduais, coisas parecidas, em função do tamanho das coligações.

É isso que verá a maioria das pessoas, que não gosta do “horário eleitoral” (ou “guia”, como é chamado em algumas regiões). Estudos mostram que, quando a eleição termina, mais da metade dos eleitores não viu sequer um inteiro. Esses, os que só assistem aos comerciais, são tratados a pão e água pela legislação.

E ainda querem que o eleitor “vote consciente”.

Eleições sem graça

28/07/2010

Eleições sem graça

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Quem quiser sustentar a tese de que nossa legislação eleitoral é satisfatória terá poucos motivos. Salta aos olhos da maioria do país que ela é inconveniente e que já é mais que hora de mudá-la em profundidade.

Só por conveniência a defendem. Ninguém acha, com sinceridade, que seja boa, e, quando alguém finge admirá-la, é por puro oportunismo.

Semana passada, por exemplo, para (pela milionésima vez) criticar o que Lula faz, uma de nossas revistas semanais mais importantes disse, em editorial, que “... no Brasil de hoje, o governante se insurge de maneira histérica contra leis intrinsecamente boas, democraticamente feitas e aprovadas. A pouco mais de dois meses da votação em primeiro turno, zomba abertamente da consagrada Lei Eleitoral brasileira”.

É impressionante a quantidade de equívocos em um parágrafo tão curto. Independentemente das estocadas que querem dar em Lula, nenhuma dessas avaliações faz sentido. Embora seja um truísmo dizer foram feitas democraticamente (pois isso só não seria verdade se vivêssemos em uma ditadura), elas não são nem boas, nem aprovadas pela maioria da opinião pública. Portanto, nossa Lei Eleitoral pode ser tudo, menos “consagrada”.

São muitas as mostras de que elas são, ao contrário, más e que, por isso, insurgir-se contra elas não é histeria ou consiste em zombaria. Nossas leis eleitorais são tão ruins que fazem com que fiquemos cada dia mais distantes do que é desejável em uma cultura democrática.

Um dos maiores jornais do Rio de Janeiro trouxe, este fim de semana, reportagem sobre suas consequências nos programas humorísticos da televisão. À primeira vista, poder-se-ia dizer que é algo secundário, quase irrelevante na discussão política mais “séria”. Afinal, que significado teria o humor na vida política de uma sociedade?

Quem imaginar que pequeno (ou nenhum) incorreria em erro. O humor é um componente fundamental das relações saudáveis entre cidadãos e políticos, governos, candidatos e eleições. Rir deles é uma maneira de reduzir distâncias, de dessacralizá-los, de trazê-los para a esfera de ação das pessoas comuns. Em outras palavras, de aprofundar os valores mais básicos da democracia, igualitários e anti-hierárquicos. Não há nada mais genuinamente democrático que rir dos poderosos e suas atribulações.

Pois bem, na contra-mão de nossas antigas tradições, de sempre encontrar motivos para ironizar e brincar com os políticos e os candidatos, tão típicas da cultura brasileira, a legislação atual faz o oposto. Se depender dela, o humor está banido.

Ouvidos, os responsáveis pelos programas humorísticos de maior audiência foram unânimes. Nenhum pretende trazer as eleições para suas brincadeiras. Alguns pensam inventar personagens, para não deixar de falar nelas, nem que seja através de candidatos fictícios. Nada de graças, paródias, ironias ou piadas com os candidatos reais.

Os humoristas têm medo da legislação e têm razão. Ela cerceia a expressão, inibe a manifestação e ameaça os que tratam sem salamaleques o mundo da política. No seu artigo 45, a Lei nº 9.504/97 proíbe as emissoras de televisão de fazer coisas que, “de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação”. Quem a descumprir está sujeito a multa de até 106 mil reais, que dobra na reincidência.

Que inveja dos americanos! Lá, ninguém poupa candidato nenhum, nem humoristas, nem apresentadores ou âncoras de talk-shows. Quem entra na chuva das eleições sabe que pode se molhar. Que o diga Sarah Palin, candidata a vice na chapa republicana derrotada em 2008. Merecia ser ridicularizada e o foi sem piedade. Imagine se lá existisse um Índio...

Por trás das proibições à graça e ao humor, está o espírito que atravessa por inteiro nossa legislação eleitoral: a desconfiança na capacidade de discernimento do cidadão, de que ele consiga julgar sozinho, de que possa prescindir de patronos. No dia em que nossas leis reconhecerem que o eleitor não precisa ser tratado com paternalismo, começaremos a construir uma cultura política verdadeiramente democrática. Onde rir dos candidatos é um direito que nenhuma falsa circunspecção deve reprimir.

Boas e Más Leis

25/07/2010

Boas e Más Leis

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Sem a lei, não existe civilização e sociedade organizada. Sem a universalização da obrigação de cumpri-la, não existe democracia. Repetindo um velho e verdadeiro chavão, a democracia exige que o preceito da igualdade de todos perante a lei seja observado, seja no tocante aos direitos, seja aos deveres. Ela existe para todos e todos estão igualmente sujeitos a ela.

Daí não se deduz, no entanto, que as leis sejam imutáveis. Respeitá-las não quer dizer eternizá-las. As sociedades chegam a determinadas formulações institucionais e podem alterá-las, considerando que não se adéquam mais ao que ela considera desejável. Uma lei pode caducar. Era boa em determinado momento, mas, em outro, torna-se ultrapassada.

Nas leis fundamentais, essa mutabilidade é rara e pouco recomendável. Mas há outras em que é muito positivo que existam mecanismos que aumentem a possibilidade de mudanças e que até as encorajem.

Veja-se o caso da moderna legislação eleitoral brasileira. Toda ela foi feita depois de um hiato de mais de 20 anos de ditadura, nos quais as eleições para o Executivo foram circunscritas às disputas municipais (em cidades do interior) e as legislativas fortemente cerceadas. Enquanto o país passou por grandes mudanças econômicas, sociais e culturais, o sistema político permaneceu artificialmente congelado.

Note-se que nossa tradição democrática anterior ao golpe militar de 1964 não nos serviu de muita ajuda naquela altura, pois era modesta. Os intervalos democráticos que vivemos no século XX foram tão pequenos que não produziram referências jurídicas sólidas para a reconstrução institucional pós-ditadura. Em outras palavras, tivemos que inventar uma legislação eleitoral enquanto a íamos praticando.

Muita coisa foi feita na base da tentativa e do erro. Fez-se uma lei para uma eleição, verificou-se em que funcionou e mudou-se na outra. O compromisso não era com a permanência, mas com a eficácia. Todos queriam leis melhores, ainda que não fossem duráveis.

O resultado disso foi uma intensa volatilidade em nossas leis eleitorais. Durante muitos anos, cada eleição teve um marco jurídico diferente em aspectos fundamentais e não apenas em questões de detalhe. Em função disso, a cada uma se ouvia um coro de críticas à falta de “regras claras e homogêneas”, como se elas pudessem brotar do nada.

Hoje, é evidente a necessidade de reavaliar a legislação eleitoral. Há muita coisa nela que foi superada pelas transformações que atravessamos nos últimos 20 anos - na sociedade, nos meios de comunicação, na tecnologia. Ela usa expressões que ninguém mais conhece, se ocupa de coisas obsoletas e quer disciplinar outras que se tornaram irrelevantes.

Há, ainda, coisas que foram superadas na prática pelos atores políticos, independentemente de ideologia. Por exemplo, os limites ao livre uso do tempo de propaganda na televisão e o rádio, pois eles contrariam um objetivo maior, de fortalecimento dos partidos políticos. Por exemplo, o engessamento do processo eleitoral em um calendário que contraria o bom senso.

Nunca se falou tanto quanto nestas eleições presidenciais de “campanha antecipada”. É como se houvesse um consenso de que é bom, nas eleições, que os eleitores só conheçam as candidaturas na “hora certa”. Antes, por motivos desconhecidos, não seria desejável que soubessem quem são os candidatos, com quem estão, o que representam. Mas qual é a “hora certa”?

A resposta que nossa legislação dá à pergunta desafia a lógica: três meses antes da eleição. Se alguém se apresentar como candidato fora desse prazo, se pedir votos para si ou para outra pessoa, tem que pagar multa. E por que três e não seis meses ou um ano? Mais tempo de exposição das candidaturas não faria com que os cidadãos as pudessem analisar com mais cuidado e profundidade? E isso não seria bom?

Quem cobra punições para aqueles que “antecipam” as eleições não está à procura de justiça. Quer apenas usar uma legislação caduca (da qual, no íntimo, discorda), para impedir que outros façam o mesmo que faz.

Enquanto não mudarmos de vez nossa legislação eleitoral, as coisas vão ficar assim: a lei serve para proibir que seu adversário faça aquilo que você, tranquilamente, faz.

Lula, FHC e Serra

21/07/2010

Lula, FHC e Serra

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Outro dia, o ex-governador José Serra fez uma declaração surpreendente. Falando a uma rádio de Pernambuco, disse que Lula e Fernando Henrique “são iguais”. Como, provavelmente, suas palavras foram recebidas com incredulidade, teve logo que aduzir que falava com fundados motivos, pois “conhecia bem os dois”.

Quem ficasse com a manchete teria uma impressão equivocada do que ele pretendia dizer. Serra não fez a comparação para externar algo que muita gente pensa, que os dois últimos presidentes se parecem nas suas opções para as principais políticas de governo (a começar pela política econômica) e que as semelhanças entre o que fazem concretamente suplantam, muitas vezes, suas diferenças retóricas.

Seria, até, uma declaração normal, considerando a época em que estamos e as características de sua candidatura. Afinal, Serra tem procurado se equilibrar entre a crítica e o aplauso a Lula, para não alienar (em definitivo) os que admiram o presidente. Por isso, a frase poderia ser vista como habilidosa, uma maneira de afirmar que PSDB e PT não são tão antagônicos.

O curioso, no entanto, é que Serra não falou que os dois eram iguais no bom sentido. Ao contrário, disse-o para salientar que ambos fizeram errado e que ele faria certo, se eleito presidente. Lula e seu antecessor são, para o candidato do PSDB, igualmente responsáveis por não termos ainda feito a reforma política de que o Brasil precisa. Se ele ganhar, ela acontecerá.

Para demonstrar o empenho que teria para levá-la a cabo, disse que se preocupa com o assunto há muito tempo, tendo chegado a conversar com Lula para convencê-lo a se engajar na luta. Pelo visto, não conseguiu, pois ela não se concretizou. Assim como não teve êxito em persuadir o antecessor dele no Planalto, com quem Serra terá tido milhares de oportunidades para tratar do tema. Ou seja, por mais que tenha tentado, a reforma política não andou. Mas não por sua causa. A culpa é de Fernando Henrique e de Lula. Daí que são iguais.

É fácil concordar com ele a respeito do pouco que nossos dois últimos presidentes fizeram a respeito. Ambos tiveram condições, mas, por motivos diferentes, acabaram ficando aquém do que poderiam. Especialmente Lula, que governou com níveis estratosféricos de aprovação e que tinha muito mais poder de influenciar o Congresso.

O que se ignorava é a atuação de Serra na batalha pela reforma política. Embora, como todo político brasileiro, tenha se manifestado protocolarmente sobre sua conveniência, desconhecia-se que fosse um militante da ideia. Como liderança maior das oposições (a ponto de ser seu único representante nas eleições presidenciais), como político maduro e experiente, ex-deputado e ex-senador, ex-presidente do PSDB, ex-governador de São Paulo, é pena que sua voz não tenha sido ouvida. Fora a conversa privada que revelou ter mantido com Lula, a opinião pública não foi informada do que mais terá feito pela reforma.

Para sublinhar que suas palavras eram para valer, Serra acrescentou: “Vou bancar a reforma política neste país, vou peitar e bancar”. Releve-se o tom popular da declaração, comum nas entrevistas que os políticos dão a emissoras de rádio. Eles acham que os ouvintes só os entendem se usarem uma linguagem “bem povão”. Mas é uma frase estranha.

Os dicionários registram dois sentidos para a palavra peitar. O antigo é de pagamento de uma obrigação, mas também de “dar uma coisa para que se faça outra (...) subornar com dádivas”, segundo o Houaiss. Certamente, não foi pensando em fazer algo parecido no Congresso para aprovar a reforma política que Serra a empregou.

A segunda acepção, mais próxima do clima da entrevista, é “abrir caminho com o peito”, “arrostar de frente, de modo destemido”, “dar encontrão ou batida”. Parece que está prometendo que, se eleito, vai fazer com que Câmara e Senado aprovem a reforma nem que seja à custa de trombadas.

Como José Serra nunca foi disso na sua vida pública (ainda bem!), só se pode debitar ao nervosismo de campanha sua declaração. Que nada mais é que querer navegar na onda do inconformismo das pessoas comuns frente ao que veem na política. E lhes oferecer a (perigosa) ilusão de que é “na marra” que iremos adiante.

Uma pergunta: o que diriam alguns de nossos jornais se a declaração fosse de Dilma?

Votos e Planos

18/07/2010

Votos e Planos

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Popul

Dizer que os planos de governo são pouco mais que peças decorativas em uma campanha pode soar como heresia. Pior, como uma afirmativa que renega tudo que as campanhas deveriam ser.

Existe, no centro de nossa cultura política, um modelo idealizado do processo eleitoral, em função do qual estabelecemos o certo e o errado nas eleições e no comportamento dos candidatos. Nele, os planos de governo são a parte nobre da disputa, a razão para que o eleitor opte por um candidato e descarte outros.

Nessa visão abstrata, qualquer voto que não se baseie nas propostas dos candidatos é inferior. Se o eleitor deixar que suas paixões o dominem, se permitir que alguém o influencie, se pensar com seu bolso ao invés de com sua mente, comete um pecado contra a cidadania. Bom é aquele que olha apenas os planos de governo.

Se as coisas fossem assim, o eleitor teria uma árdua tarefa pela frente, procurando se informar sobre os projetos dos vários candidatos para cada área. Depois, os analisaria, quem sabe usando critérios como exequibilidade e relevância, para chegar a uma conclusão a respeito de cada um. E ai do candidato que não tivesse propostas para todas as políticas: com uma nota zero, por exemplo, na parte dedicada à energia, precisaria de um dez quando suas metas de política monetária fossem escrutinadas.

É evidente que isso não existe, nem do lado dos eleitores, nem dos candidatos. E não é por que somos uma sociedade pobre e temos uma cultura política imatura. As eleições não são assim em lugar nenhum do mundo.

Eleições não são exames escolares, em que os eleitores-julgadores avaliam racionalmente os candidatos, dando a uns notas baixas e ao “melhor” o diploma de honra ao mérito. Elas envolvem paixões, interesses, lealdades, emoções, identidades formadas ao longo da vida, torcidas. Na imensa maioria das vezes, as pessoas primeiro escolhem em quem vão votar e só depois ficam sabendo o que “seu” candidato propõe. Por isso, elas sempre preferem seus projetos e acham piores os dos adversários (mesmo quando são bons).

No Brasil contemporâneo, não houve uma só eleição presidencial em que as propostas dos candidatos, literalmente falando, tivessem sido relevantes. Ninguém votou Collor pelo “plano de governo”, mas por que queria juventude e mudança. Fernando Henrique ganhou e se reelegeu com um plano de uma palavra só: real. Lula chegou e permaneceu no poder por que a população se convenceu de que a hora dele tinha chegado, pois estava cansada da elite que governava.

Os candidatos não gostam de perder tempo com esforços inúteis. Para que fazer detalhados e minuciosos planos de governo, se a eleição é sempre incerta? Apenas para satisfazer uma formalidade, dado que os eleitores pouco vão vê-los?

Na disputa, o máximo que as candidaturas apresentam são “planos de campanha”, não “de governo”. Na essência, são ideias pensadas para se transformar em peças de propaganda, que nem precisam ser inteiramente realistas. Como se destinam à televisão, têm que ser simples e curtas, sem fundamentações e cálculos de viabilidade. Seu objetivo é fixar, através do conteúdo, a imagem que se pretende projetar para o candidato: “conhece as pessoas carentes”, “sabe o que fazer para resolver os problemas do povo” e atributos semelhantes. Não são formuladas para governar, mas para ganhar a eleição.

Por isso, os verdadeiros planos só são elaborados depois que o candidato vence, quando seus assessores recebem os dados de dentro do governo e se dedicam seriamente a eles. É nas equipes de transição que se fazem planos de governo, não nas de campanha.

Quem reclama da falta de “planos de governo” nestas eleições talvez não se dê conta, mas, para a maioria das pessoas, eles são claros: Dilma quer manter e Serra mudar o que Lula está fazendo. Essa informação basta para elas.