15/11/2009
Dois apagões
As pessoas cobrarão de Lula a vulnerabilidade de nosso sistema elétrico? Lula e Dilma dariam graças aos céus se seu problema para 2010 fosse esse
Depois do apagão da terça feira, passou a ser um esporte nacional especular a respeito de suas consequências nas eleições do ano que vem. Nada mais natural, para um país que tem dedicado atenção até excessiva a elas, considerando a distância em que ainda estão. Se tudo é olhado sob o prisma eleitoral, porque não fazê-lo em relação a algo que atingiu tanta gente?
Costumam ser duas as maneiras de discutir as possíveis repercussões do apagão. Uma é tratando-o como o “apagão do Lula” para poder compará-lo ao “apagão do Fernando Henrique”. Outra é procurando avaliar os efeitos que poderia ter na imagem de Dilma, uma candidata para quem a ideia de competência, posta em dúvida pelo episódio, é essencial.
Quem anda pelo primeiro caminho parece não saber ou ter se esquecido do que aconteceu em 2001. Certamente existem pessoas que apenas ignoram o que se passou no país naquela altura. Afinal, já lá vão oito anos e muitos dos adultos de hoje mal tinham saído da infância então.
Fora esses, a confusão entre os “dois apagões” não faz sentido. A menos que venha de uma surpreendente falta de memória ou resultar de opção política. Nesse caso, dos que confundem porque querem, porque lhes é conveniente. O que não tem nada de mal.
Para entender 2001, é preciso lembrar de 1999, pois foi lá que o problema nasceu. Não a crise energética, mas a crise de imagem de FHC e de seu governo. Foi na hora em que o Real quase virou água que Fernando Henrique começou a viver seu carma.
No imaginário a respeito da moeda e de seu “inventor” (pois foi assim que o povo foi apresentado ao seu futuro presidente), o Real era fruto da mente brilhante de um grupo de técnicos, mais inteligentes que Colombo com seu ovo. O que ninguém, nunca, tinha conseguido fazer, eles conseguiram, manipulando meia dúzia de fórmulas mágicas. A inflação acabou a golpes de genialidade.
Na hora em que o Real desabou, a casa caiu. A crise cambial de 1999 levou tudo de roldão, incluindo o esteio da imagem presidencial.
Foi esse o governo que comunicou à população, no início de 2001, que íamos ficar sem energia elétrica, sabe-se lá em que intensidade, sabe-se lá por quanto tempo. O certo é que todo mundo teria que economizar energia e rezar para que chovesse. Na televisão, o debate era sobre o que ia acontecer com os hospitais, os sinais de trânsito, os elevadores dos prédios, nas várias horas em que, talvez, ficássemos, diariamente, sem luz. É isso que recebeu o nome de “apagão”.
Imagem de presidente algum resistiria bem a algo assim e a de Fernando Henrique não resistiu. Ainda mais por estar debilitada pela perda de sua principal sustentação.
Alguém vê alguma coisa parecida no que aconteceu terça feira? Que raios (pedindo licença para usar a palavra) o “apagão do Lula” tem disso?
Note-se que o fundamento da imagem do atual presidente não está em noções como excelência técnica ou capacidade gerencial. Seus muitos admiradores o veem como alguém que sabe escolher corretamente prioridades, que manda fazer o que deve ser feito, sem que, para isso, precise ter conhecimento acadêmico. Lula é, para a maioria do país, um bom presidente porque age com bom senso e sensibilidade.
E o governo? Em muitas coisas, naquelas em que a marca do presidente é visível, como nos programas sociais, é um bom governo. Em algumas, tem sorte, o que não é igual a mérito. Em outras, é apenas igual aos anteriores e parecido aos que as pessoas conhecem nos estados e nos municípios. O próprio Lula, em que pese o fascínio que tem pela sua obra, deve saber que as notas que recebe em muitas políticas são apenas medianas.
As pessoas cobrarão de Lula a vulnerabilidade de nosso sistema elétrico? Vão achar, daqui a um ano, que Dilma é má candidata por ter havido o apagão da terça?
Lula e Dilma dariam graças aos céus se seu problema para 2010 fosse esse. Alguém supõe que um apagão é mais grave, para os eleitores, que os imensos problemas da saúde pública, da segurança, do emprego de qualidade?
Na hora do voto, ou as pessoas acreditam na palavra de Lula e a escolhem para continuar seu trabalho, ou não. Para essa decisão, o apagão é irrelevante.
domingo, 19 de setembro de 2010
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