24/01/2010
O paradoxo de Serra
Estamos em outro janeiro de ano eleitoral e lá está ele de novo tendo que avaliar o que vai fazer. Nas vezes passadas, sabemos o que ele terminou escolhendo. Em uma, foi adiante; na outra, achou melhor retroceder. E agora?
Nos últimos oito anos, o governador de São Paulo, José Serra, teve dois janeiros especialmente difíceis. Tanto em 2002 quanto em 2006, aos problemas que todo administrador público brasileiro enfrenta no início do ano (chuvas em excesso, enchentes, epidemias de doenças de verão, para falar de apenas alguns), vieram se somar outras preocupações, bem diferentes. Devem ter sido janeiros de noites mais intranquilas que as de costume.
Nos dois momentos, Serra teve que tomar decisões delicadas, sobre se iria participar das eleições presidenciais que aconteceriam no correr do ano. Qualquer pessoa ficaria ansiosa em situação parecida. Alguém como ele, então, nem se fala.
Estamos em outro janeiro de ano eleitoral e lá está Serra de novo tendo que avaliar o que vai fazer. Nas vezes passadas, sabemos o que ele terminou escolhendo. Em uma, foi adiante; na outra, achou melhor retroceder. E agora?
Serra chegou a janeiro de 2002 como vitorioso, depois de uma longa batalha pela vaga de candidato do governo à sucessão de Fernando Henrique Cardoso. Não foi um processo simples, pois deixou vítimas pelo caminho, com feridas que não cicatrizaram até hoje. A família Sarney, por exemplo, ainda não o desculpou pelo que entende ter sido sua atuação contra Roseana.
Naquela época, nove em 10 analistas do sistema político brasileiro achavam que nosso eleitor nunca iria eleger Lula presidente. Por mais que estivesse bem nas pesquisas, por mais que parecesse que poderia ganhar uma eleição (como havia acontecido no segundo turno de 1989 e no começo de 1994), ele não chegava lá. Os temores do que faria e os preconceitos contra ele não deixavam.
Assim, o fato de Lula liderar as pesquisas em 2001 não era problema. Parecia que, para os pré-candidatos do governo, a verdadeira batalha era pelo direito de concorrer com o PT, pois a briga contra ele estava ganha. A rejeição a Lula bastava para levar ao Planalto quem quer que fosse seu adversário.
Quando chegamos a 2002, no entanto, as coisas começaram a ficar mais nebulosas para o bloco governista. A certeza de que Lula iria perder outra vez diminuiu. Com isso, para Serra, a vitória sobre seus concorrentes internos logo se tornou mais fonte de preocupações que de celebrações.
O problema é que o desejo de mudanças do eleitor médio parecia maior que o medo de correr riscos com Lula. O governo Fernando Henrique estava tão mal que representá-lo na eleição virou um fardo maior que o calculado.
Naquele começo de 2002, uma pesquisa da Vox Populi mostrou que apenas 6% dos entrevistados queria que o futuro presidente mantivesse todas as políticas de FHC. Outros 40% gostariam que a maioria delas permanecesse, mas que houvesse mudanças. Os restantes 54% queriam mudanças na maior parte delas (28%) ou em todas (26%).
Para um candidato como Serra, ministro por oito anos e amigo do presidente, seria quase impossível não representar a continuidade. Mesmo se não estivesse de acordo com a maior parte das coisas que o governo fazia (como não estava de fato), ele acabaria sendo visto como continuísmo. Sua votação real no segundo turno daquela eleição (teve 39% dos votos válidos), não ficou longe daquilo que as pesquisas descortinavam para quem o simbolizasse.
Em janeiro de 2006, Serra percebeu o que vinha pela frente e evitou o confronto. Como não havia brigado com ninguém para ser candidato e tinha a opção de se manter no primeiríssimo plano da política nacional, como governador de São Paulo, abriu o caminho para (a derrota de) Geraldo Alckmin.
No fim de 2009, a Vox Populi fez pesquisa com pergunta idêntica à de 2002. Nela, viu-se que 21% dos eleitores de hoje querem que “todas” as políticas do governo Lula continuem e que 52% desejam que a maioria não mude. Sobram 25%, dos quais 18% gostariam que mudasse a maioria e, 7%, todas.
Neste janeiro de 2010, Serra está perante seu paradoxo. Quando as pessoas queriam mudança, ele era continuidade. Agora, quando elas querem continuidade, será que ele consegue não ser visto como mudança?
domingo, 19 de setembro de 2010
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