domingo, 3 de maio de 2009
Rotina mantida, apesar do tratamento
O Globo - 03/05/2009
Ministra pretende continuar viajando para divulgar o PAC
Uma semana após anunciar ao país que enfrentará quatro meses de tratamento contra um câncer, a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, procurou manter a rotina de trabalho, mas admitiu a interlocutores que a doença a obrigou a refletir sobre sua vida. Dilma tem demonstrado serenidade e tranquilidade no enfrentamento do problema, mas vem repetindo que a descoberta do linfoma mostrou que ela, a exguerrilheira que enfrentou horrores, está longe de ser onipotente.
A fragilidade eventual não significa que ela vá abrir mão de seus planos, inclusive a provável candidatura a presidente da República. Para aliados e amigos que estiveram com ela na última semana, a disposição de Dilma de ser candidata só aumentou, e o drama vivido a aproxima mais da população.
No meio da turbulência, além de manter uma agenda de trabalho superior a 12 horas diárias, Dilma tem procurado cuidar da saúde e também da aparência. No sábado passado, antes de ir para São Paulo, onde anunciou a doença, fez questão de passar no cabeleireiro para arrumar o cabelo e fazer maquiagem. E no único dia da semana que despachou em Brasília, saiu um pouco mais cedo do gabinete e foi ao salão, antes da viajar para o Rio.
Quando está em Brasília, ela mantém a rotina de caminhar no início da manhã por cerca de uma hora.
— A ministra está tranquila e muito confiante.
Sabe exatamente os medicamentos que vai tomar, e como se comportarão os glóbulos brancos durante o tratamento. Ela estudou tudo. Mas o importante é que o aspecto espiritual também está muito bem — disse o líder do PTB no Senado, Gim Argello (DF), que costuma encontrar a ministra nas caminhadas no Lago Sul.
Logo após ficar sabendo do diagnóstico de câncer, a ministra fez questão de avisar a seus parentes e teve especial preocupação com a reação da filha, a advogada Paula Rousseff Araújo. Dilma conversou por telefone com o ex-marido Carlos Araújo e pediu que ele fosse até a casa da filha para apoiá-la, quando recebesse a notícia.
Nas andanças pelo país na semana passada, a ministra experimentou a solidariedade da população, especialmente das mulheres.
Recebeu flores, receitas de tratamento caseiro e muitas mensagens de solidariedade.
A primeira sessão de quimioterapia deverá ocorrer no próximo sábado. Dilma quer marcar as sessões sempre para os sábados, para ter horas a mais de descanso, sem prejudicar a agenda de trabalho. Ela não pretende abandonar as reuniões de balanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no estados. A próxima deverá ocorrer dia 14 ou 15 de maio, mas não está decidido o estado.
Tratamento sem qualquer censura
Correio Braziliense - 03/05/2009
Divulgação da doença de Dilma muda os parâmetros usados por políticos, que escondiam fragilidades físicas com receio de perder eleitores. Pressão da mídia é uma das causas para a alteração da estratégia
O anúncio de que a ministra Dilma Rousseff terá de lutar contra um câncer, e a forma como a doença tem sido tratada, colocou em evidência as mudanças de comportamento público diante de uma enfermidade. Enquanto o linfoma da ministra foi exposto por integrantes da base aliada — incluindo a própria petista — e pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em eventos ao longo da semana passada, a história do Brasil e mundial está repleta de casos em que as condições de saúde de políticos foram escondidas. Foi assim com o ex-presidente francês François Mitterrand, que omitiu do público um câncer de próstata durante 14 anos.
A doença de Mitterrand foi diagnosticada no início do primeiro mandato, em 1981. O caso só foi informado aos franceses pouco depois de ele deixar a presidência, em 1995. No Brasil, no final da década de 1970, o então ministro da Fazenda, Petrônio Portela, escondeu ter sofrido um infarto. No dia 15 de março de 1985, o então presidente eleito pelo colégio eleitoral, Tancredo Neves, sentiu os primeiros sintomas de uma doença que o levaria à morte, depois de seis cirurgias. As dores abdominais que ele tinha não eram uma apendicite, como se imaginava inicialmente. Tancredo tinha uma diverticulite, que se agravou ao longo do tempo. O governo ainda tentou disfarçar o drama. Cinco dias depois, em 20 de abril, o especialista americano Warren Mayrion Zapol, que havia sido chamado ao Brasil, afirmara que nada mais poderia ser feito.
A mudança no caso de Dilma — e também no do vice-presidente José Alencar — não é, segundo especialistas, resultado apenas da melhoria e dos avanços da medicina. Mas também se deve ao aumento da transparência e da fiscalização da vida dos políticos. “É muito difícil hoje o político esconder o que está vivenciando. A própria mídia está acompanhando sempre. A vida pública tem que ser transparente”, avalia a cientista política Vera Lúcia Chaia, coordenadora do Núcleo de Estudos de Mídia e Política da PUC de São Paulo.
De acordo com a professora, modificaram-se também os conceitos em relação aos danos à imagem que o anúncio de uma doença pode trazer. “No caso da ministra, por exemplo, pela primeira vez ela mostrou um lado muito pessoal. Todos os problemas dela foram referentes à pasta que ela ocupa, os problemas do governo ou a um passado político que ela respondeu muito duramente. Mas nada do ponto de vista físico, pessoal, que debilita mais a pessoa. Esse lado encontra apoio por parte da população”, opina Vera Lúcia.
Para José Augusto Albuquerque, da Universidade de São Paulo, o fato de a doença ter sido abordada no ambiente político-eleitoral desde que foi anunciada já demonstra mudanças nos conceitos que tratam sobre o impacto do câncer na vida pública de uma pessoa. “A apresentação da notícia foi voltada para a questão eleitoral. A ministra não estava acompanhada (durante a coletiva em que anunciou a doença) do ministro da Saúde, mas do ministro da secretaria de Comunicação Social (Franklin Martins)”, afirma.
Oposição
O histórico das relações entre o câncer e a política tem instaurado no Congresso um clima de especulações e preocupação. De um lado, os aliados do Planalto, que querem Dilma candidata à sucessão do presidente Lula, acreditam que no melhor dos cenários a ministra irá se recuperar bem da doença e sairá fortalecida pela imagem de uma mulher guerreira. Essa tem sido a hipótese que mais preocupa o outro lado da história. Adversários da ministra enfrentam conflitos entre tratar o assunto lembrando que alguns políticos não conseguiram superar a doença ou simplesmente ignorando o apelo que a superação de uma doença pode causar.
A posição adotada pelos opositores da candidatura de Dilma é delicada. Segundo o analista João Pedro Ribeiro, da Tendências Consultoria, há uma linha tênue entre mostrar respeito e preocupação com a condição de saúde de uma pessoa e expor de uma maneira positiva a adversária. “Do ponto de vista da mídia, a situação da oposição é a mais complicada. O mais inteligente seria mudar o foco.”
Colaborou Edson Luiz
Peleja, Dilma
Correio Braziliense - 03/05/2009
Uma das minhas mais queridas amigas morreu de câncer há pouco mais de um ano. Na verdade, perdi quatro queridíssimos amigos para a doença nos últimos três anos. Outros cinco estão aí na batalha tentando pegá-la pelo chifre. Tal como um touro bravo, o câncer vai mostrar sua cara para 466 mil pessoas no Brasil só neste ano, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer, o Inca. Gente que vai se surpreender com um diagnóstico que só não é mais assustador do que o estigma que o persegue. Conversei com amigos que já se foram e converso muito com os que batalham contra a doença sobre essa máscara cruel do preconceito que aterroriza os doentes.
Hoje, bem menos do que ontem, mas ainda assim de forma intensa, o paciente diagnosticado com esse mal que mata e matará cada vez mais pessoas no mundo — em 2020, serão 15 milhões de novos casos por ano — é tratado como um pária. Sofre, perambula em hospitais, perde emprego e autoestima, tem sua estrutura familiar revirada do avesso e ainda padece da omissão. Alguns setores públicos têm boa intenção, planos e estatísticas, mas não têm a caneta mágica que transformará o ataque ao câncer numa prioridade absoluta.
Recorro a uma frase da minha amiga para voltar a tocar nesse tema tão espinhoso. “O câncer é democrático: pega rico, pobre, novo, velho, bonito, feio, felizes e infelizes.” Eu não tenho câncer, como suspeitaram alguns colegas porque fui a São Paulo fazer uma cirurgia recentemente. Não tenho por sorte. E talvez não tenha nunca. Mas, se olharmos as estatísticas, eu, você ou qualquer outro ser pode ser fisgado pela doença. A ministra Dilma tem e, apesar de dizer que não quer transformar seu caso num espetáculo, ela deveria fazê-lo. Não o espetáculo em si, calhorda, interesseiro e baseado no vitimismo para faturar votos. Mas de um jeito que nos obrigue a refletir seriamente sobre essa epidemia cruel.
Como disse uma leitora do Correio, de 38 anos, moradora da Asa Norte: “Meu câncer não é menos importante do que o da ministra”. Ela segue na reflexão e dá um ultimato: “Já passou da hora de o país finalmente começar a discutir esse assunto de forma coerente, honesta e inteligente”. O caso da ministra Dilma, tão bem analisado pelos colunistas Elio Gaspari, Ricardo Noblat, Eliane Cantanhêde e Merval Pereira, não deveria se esgotar na questão política: Dilma terá condições de seguir como candidata? Terá força, é um câncer bravo ou não? As especulações são muitas, as análises, ainda maiores. Já se fala no candidato a vice, uma indelicadeza para citar o termo mais leve.
O câncer é um caso de saúde pública em escala mundial, que cresce sobretudo em países em desenvolvimento. Um terço dos casos poderia ser simplesmente prevenido. Outros tantos, depois de diagnosticados, são passíveis de cura, desde que detectados precocemente. O problema é que o acesso às informações, ao tratamento, aos remédios é ainda ridículo. Esse deveria ser o verdadeiro foco do interesse sobre a doença. Muitos são os relatos humilhantes de pacientes em busca de tratamento, que só têm o sofrimento atenuado por generosos voluntários. Mesmo na rede particular, a exemplo de Brasília, o acesso é sofrível. Isso pode nos ajudar a pensar o quanto tudo mais que for discutido a esse respeito é inócuo e irrelevante.
Seu pai, seu vizinho, seu primo passam pelo mesmo sufoco da senhora Dilma. Recorrendo de novo à leitora da Asa Norte, o câncer da ministra deveria de fato ser usado para esclarecer de vez: o câncer é sim uma doença traiçoeira, cruel, estigmatizada; mata, corrói, alucina, mas não só as autoridades ou os artistas. O vice-presidente, José Alencar, que convive com o mal há 10 anos, sabe bem o que isso significa. Tira de letra o estigma, mas nem todos conseguem superar os aspectos negativos e apegar-se ao bom humor e à esperança. A ministra Dilma continua na peleja. E não está sozinha.
Oração por Dilma
Ancelmo Góis
Gazeta de Alagoas - AL02/05/2009 - 07:34
Amanhã, às 10h, moradores de Santa Clara do Guandu, lugar pobre de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, vão se reunir num ato ecumênico para rezar pela saúde de Dilma Rousseff. A pastora Carluce Nunes, da Igreja Batista Pentecostal Mundial, é uma das organizadoras.
Dilma Poliglota...
Aliás, na recepção para a comitiva que veio avaliar a candidatura do Rio de Janeiro aos Jogos de 2016, Dilma discursou em português, mas, depois, gastou francês e inglês no papo com o pessoal do COI.
A saúde de Dilma
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
Correio Braziliense - 03/05/2009
Todos desejamos que ela possa ser julgada pelos eleitores, em 2010, pelo que é e pelo que tem a propor ao país
O fato político mais importante da semana não foi político. Mas foi cheio de consequências políticas.
Quando tomou a decisão de falar claramente a respeito de seus problemas de saúde, Dilma não tinha escolha, pelo que se sabe do que aconteceu nos dias que antecederam o anúncio. A imprensa de São Paulo estava prestes a noticiar sua internação e cirurgia. Elas seriam tornadas públicas a qualquer momento.
Como ela só convocou a coletiva na última hora, o que se deduz é que, para ela e seus conselheiros, a opção preferida era nada dizer. Se tivessem conseguido manter em sigilo o que estava acontecendo, era isso que teriam feito.
Não há nada de estranho nisso. Pessoas conhecidas costumam preferir que, de sua vida privada, o distinto público só conheça aquilo que as engrandece. Toda celebridade é assim.
Políticos são especialmente avessos à divulgação de detalhes sobre seu estado de saúde, em particular os que ocupam funções executivas. Em qualquer lugar, os cidadãos ficam inquietos quando sabem que o chefe de governo não governa na plenitude, por um impedimento ou uma limitação dessa natureza. Suas doenças só são reveladas quando já foram superadas ou quando não interferem com suas atividades.
Assim, Dilma e o presidente, junto com os assessores que consultaram, escolheram a linha de ação mais comum nessas situações: manter a doença em segredo, rezar para que ninguém a descubra e só admitir que existe se for inevitável. Se dependesse deles, ninguém conheceria o diagnóstico, a cirurgia ou o tratamento a que a ministra se submeterá.
O oposto não faria mesmo nenhum sentido, pois está para nascer o político que acha bom que todos saibam de seus problemas. Que toma a iniciativa de chamar a imprensa para comunicar que tem uma doença grave.
Desde quando Dilma deu as declarações, o que mais vimos, nos meios políticos e na imprensa, foram especulações sobre suas consequências. O tom geral foi de que a doença poderia ter um “lado bom”, tese que empolgou alguns governistas e encheu de cautelas a oposição. Nela, houve até quem desconfiasse de um maquiavelismo tão sinuoso que, quem sabe, não fosse a própria doença um ardil, uma armação para turbinar a candidatura da ministra.
Tentar tornar positivo o negativo é uma das coisas mais naturais na política. Nada há, portanto, de inusitado em que o governo procure “fazer do limão uma limonada”. Perante o choque de saber que sua candidata enfrenta um sério problema de saúde, o estado-maior governista reagiu insinuando que, ao contrário de ser prejudicial, a doença poderia não ser de todo negativa.
A verdade é que, se a versão oficial sobre ela estiver certa (detecção precoce, cirurgia bem-sucedida e tratamento que não obriga à mudança da rotina de trabalho), a doença de Dilma será coisa do passado quando chegarmos à eleição. Ela não será nem boa, nem má. Pouca gente sequer vai se lembrar dela.
E ninguém vai correr o risco de fazer com que ela volte à memória do eleitor. Quem, nas oposições, quiser explorar a fraqueza de uma “candidata doente”, ou quem, no governo, quiser enaltecer a “coragem e a humanidade” de quem a enfrentou, será rejeitado pela imensa maioria das pessoas.
Ninguém vai deixar de votar em Dilma por ela ter tido, um dia, um problema de saúde, por mais grave que seja. E também ninguém vai votar nela por tê-lo encarado.
Todos desejamos que ela possa ser julgada pelos eleitores, em 2010, pelo que é e pelo que tem a propor ao país. Quem achar que pode torná-la uma “coitadinha”, seja para o lado negativo, seja para o positivo, será punido pelo eleitorado.