domingo, 3 de maio de 2009

Tratamento sem qualquer censura

Autor(es): Flávia Foreque e Izabelle Torres
Correio Braziliense - 03/05/2009

Divulgação da doença de Dilma muda os parâmetros usados por políticos, que escondiam fragilidades físicas com receio de perder eleitores. Pressão da mídia é uma das causas para a alteração da estratégia



O anúncio de que a ministra Dilma Rousseff terá de lutar contra um câncer, e a forma como a doença tem sido tratada, colocou em evidência as mudanças de comportamento público diante de uma enfermidade. Enquanto o linfoma da ministra foi exposto por integrantes da base aliada — incluindo a própria petista — e pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em eventos ao longo da semana passada, a história do Brasil e mundial está repleta de casos em que as condições de saúde de políticos foram escondidas. Foi assim com o ex-presidente francês François Mitterrand, que omitiu do público um câncer de próstata durante 14 anos.

A doença de Mitterrand foi diagnosticada no início do primeiro mandato, em 1981. O caso só foi informado aos franceses pouco depois de ele deixar a presidência, em 1995. No Brasil, no final da década de 1970, o então ministro da Fazenda, Petrônio Portela, escondeu ter sofrido um infarto. No dia 15 de março de 1985, o então presidente eleito pelo colégio eleitoral, Tancredo Neves, sentiu os primeiros sintomas de uma doença que o levaria à morte, depois de seis cirurgias. As dores abdominais que ele tinha não eram uma apendicite, como se imaginava inicialmente. Tancredo tinha uma diverticulite, que se agravou ao longo do tempo. O governo ainda tentou disfarçar o drama. Cinco dias depois, em 20 de abril, o especialista americano Warren Mayrion Zapol, que havia sido chamado ao Brasil, afirmara que nada mais poderia ser feito.

A mudança no caso de Dilma — e também no do vice-presidente José Alencar — não é, segundo especialistas, resultado apenas da melhoria e dos avanços da medicina. Mas também se deve ao aumento da transparência e da fiscalização da vida dos políticos. “É muito difícil hoje o político esconder o que está vivenciando. A própria mídia está acompanhando sempre. A vida pública tem que ser transparente”, avalia a cientista política Vera Lúcia Chaia, coordenadora do Núcleo de Estudos de Mídia e Política da PUC de São Paulo.

De acordo com a professora, modificaram-se também os conceitos em relação aos danos à imagem que o anúncio de uma doença pode trazer. “No caso da ministra, por exemplo, pela primeira vez ela mostrou um lado muito pessoal. Todos os problemas dela foram referentes à pasta que ela ocupa, os problemas do governo ou a um passado político que ela respondeu muito duramente. Mas nada do ponto de vista físico, pessoal, que debilita mais a pessoa. Esse lado encontra apoio por parte da população”, opina Vera Lúcia.

Para José Augusto Albuquerque, da Universidade de São Paulo, o fato de a doença ter sido abordada no ambiente político-eleitoral desde que foi anunciada já demonstra mudanças nos conceitos que tratam sobre o impacto do câncer na vida pública de uma pessoa. “A apresentação da notícia foi voltada para a questão eleitoral. A ministra não estava acompanhada (durante a coletiva em que anunciou a doença) do ministro da Saúde, mas do ministro da secretaria de Comunicação Social (Franklin Martins)”, afirma.

Oposição
O histórico das relações entre o câncer e a política tem instaurado no Congresso um clima de especulações e preocupação. De um lado, os aliados do Planalto, que querem Dilma candidata à sucessão do presidente Lula, acreditam que no melhor dos cenários a ministra irá se recuperar bem da doença e sairá fortalecida pela imagem de uma mulher guerreira. Essa tem sido a hipótese que mais preocupa o outro lado da história. Adversários da ministra enfrentam conflitos entre tratar o assunto lembrando que alguns políticos não conseguiram superar a doença ou simplesmente ignorando o apelo que a superação de uma doença pode causar.

A posição adotada pelos opositores da candidatura de Dilma é delicada. Segundo o analista João Pedro Ribeiro, da Tendências Consultoria, há uma linha tênue entre mostrar respeito e preocupação com a condição de saúde de uma pessoa e expor de uma maneira positiva a adversária. “Do ponto de vista da mídia, a situação da oposição é a mais complicada. O mais inteligente seria mudar o foco.”


É muito difícil hoje o político esconder o que está vivenciando. A vida pública tem que ser transparente

Vera Lúcia Chaia, coordenadora do Núcleo de Estudos de Mídia e Política da PUC de São Paulo

A apresentação foi voltada para a questão eleitoral. A ministra estava acompanhada do ministro-chefe da secretaria de Comunicação
José Augusto Albuquerque, cientista político da USP

Do ponto de vista da mídia, a situação da oposição é a mais complicada. O mais inteligente seria mudar o foco
João Pedro Ribeiro, analista político


Colaborou Edson Luiz

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