domingo, 19 de setembro de 2010

25/11/2009

Eleitores e votantes

De 1988 em diante, ou seja, nos 20 anos pós-eleição de Collor, o aumento da população eleitora se deu de maneira linear, sem saltos ou alterações de tendência. O mesmo, porém, não aconteceu com outro indicador do desenvolvimento democrático, o número de votantes efetivos

Nos 20 anos passados de 1989 até hoje, o número de eleitores brasileiros cresceu em extraordinários 50 milhões. De 82 milhões de cidadãos habilitados a votar naquela primeira eleição presidencial depois do golpe militar, estamos, este ano, beirando os 132 milhões. Ano que vem, quando formos escolher o sucessor de Lula, estaremos, ao que tudo indica, perto dos 135.

A última eleição antes do golpe de 1964 foi vencida por Jânio Quadros e aconteceu em outubro de 1960. Os contemporâneos ficaram impressionados com a magnitude da vitória. O eleito tivera 5,6 milhões de votos, 2 milhões a mais que o segundo colocado. Era a maior votação jamais obtida por alguém no Brasil. Tínhamos, naquela altura, 15,6 milhões de eleitores inscritos.

São números que, atualmente, não enchem os olhos de ninguém. Dezenas de candidatos já ultrapassaram essas marcas em eleições municipais e estaduais, para não falar dos presidentes eleitos e seus adversários principais. Até Enéas Carneiro chegou quase lá, quando ficou em terceiro lugar nas eleições de 1994 (teve mais que 4,6 milhões de votos).

O grande impulso para o crescimento do eleitorado foi dado pela Constituição de 1988, que ampliou o sufrágio para segmentos excluídos pela legislação anterior. De mais relevante, ela estabeleceu que os analfabetos eram iguais aos outros cidadãos, assim como os jovens com mais de 16 anos. Caso desejassem, nada impedia que se inscrevessem e votassem. Se a Carta de 1945 tivesse dispositivo semelhante, a mudança dos anos 1960 para cá seria menos espetacular.

De 1988 em diante, ou seja, nos 20 anos pós-eleição de Collor, o aumento da população eleitora se deu de maneira linear, sem saltos ou alterações de tendência. O mesmo, porém, não aconteceu com outro indicador do desenvolvimento democrático: o número de votantes efetivos.

Somos, como todos sabem, um país que adota, desde 1934, o princípio do voto compulsório. Todos os que não são explicitamente excluídos (como os analfabetos até 1988) são obrigados a votar, ainda que as penalidades para quem descumpra o estipulado sejam pouco relevantes.

O aumento do eleitorado obedece a lógica do crescimento da população, salvo mudanças jurídicas como a apontada. É, portanto, um fenômeno eminentemente demográfico. Já o do número de votantes é influenciado por fatores de outra natureza, mais propriamente políticos e sociológicos.

Ao longo dos últimos 20 anos, a evolução desse indicador foi tudo, menos linear. Comparando as cinco eleições presidenciais que aconteceram, vemos que ele começou elevado, caiu, permaneceu baixo e só voltou a subir nas duas últimas.

Na primeira, a proporção de votos nominais sobre o eleitorado inscrito foi de 81,7%. Ou seja, se excluirmos aquilo que nossa Justiça Eleitoral chama “alienação eleitoral”, temos que apenas 18% do total de eleitores se absteve, votou nulo ou branco. Todos os demais compareceram e optaram por algum candidato.

É muito provável que esse nível de participação se explique em função de quão aguardada era, por toda a população, a oportunidade de voltar a votar para presidente. Ele mostra, também, que o fato daquela ter sido uma eleição solteira (pois só estava em disputa o cargo de presidente) em nada diminuiu o interesse dos eleitores, sugerindo que são eles mesmos que se levam ao voto, sem precisar da ação “mobilizadora” de lideranças, palanques ou máquinas partidárias.

Quatro anos depois, essa proporção caiu para 66%, e daí para 63% na eleição seguinte. Em outras palavras, nas duas “eleições do Real”, uma fatia grande e crescente do eleitorado perdeu o interesse na escolha do presidente. Enquanto o eleitorado aumentou de 82 para 106 milhões entre 1989 e 1998, o número de votos válidos cresceu apenas de 67,6 para 67,7 milhões: 24 milhões de novos eleitores foram incorporados, mas a votação nominal ficou praticamente estável.

Nas duas eleições de Lula a tendência mudou. Em 2002, quase 74% dos eleitores votaram em alguém, enquanto em 2006, foram quase 77%. Ainda não alcançamos o patamar de 1989, mas podemos repeti-lo em 2010.

O desafio do sistema político só começa quando inclui mais gente no eleitorado. Se não for capaz de motivá-la, fica aquém de seu papel.
22/11/2009

Ainda somos os mesmos?

Na hora de atrair os eleitores ano que vem, vai errar feio quem achar que continuamos iguais ao que fomos há vinte anos

Quando, no domingo passado, comemoramos 20 anos da primeira eleição presidencial direta desde o golpe de 1964, havia muita coisa a celebrar. Para começar, o fato básico de serem 20 anos de democracia contínua, durante os quais a população escolheu, sem interrupções e em condições de completa normalidade institucional, o Presidente da República. Isso nunca havia acontecido em nossos mais de cinco séculos de história.

Muita coisa mudou na sociedade e na política brasileira nesse período. Talvez só adiante, quando tivermos o distanciamento necessário para fazer avaliações isentas, seremos capazes de aquilatar o quanto. Certo é que mudamos mais (e para melhor) do que imaginam os que, com compreensível impaciência, gostariam que tudo andasse em velocidade maior.

Agora, quando estamos às vésperas de uma nova eleição presidencial, uma dessas mudanças assume especial importância, uma que nem sempre percebemos. Se não a considerarmos, no entanto, o entendimento do que é hoje nossa vida política fica muito limitado.

Trata-se da grande mudança que aconteceu no eleitorado brasileiro nesses 20 anos. Sem exageros, é possível dizer que o eleitorado que votou em 1989 é completamente diferente do que existe em 2009 e do que vai votar ano que vem.

Mudou em tudo. Aumentou significativamente e suas características demográficas e socioeconômicas ficaram muito diferentes.

Em números redondos, éramos 82 milhões de eleitores em 1989. Nas duas décadas a seguir, passamos a ser pouco menos que 132 milhões. Ou seja, no período, o eleitorado cresceu em quase 50 milhões de pessoas.

A incorporação de um contingente de novos eleitores desse tamanho, sem crises ou rupturas, apesar da manutenção de um padrão de desenvolvimento que associa altos níveis de pobreza e elevada concentração de renda, diz muito a respeito da capacidade adaptativa de nossa sociedade. Significa que, em última instância, o sistema político foi capaz de oferecer a esses novos cidadãos a expectativa de que, na democracia, suas necessidades seriam atendidas, ainda que parcialmente.

O veículo por excelência desse processo foi o PT, simbolizado pela figura de Lula. Mesmo quem não gosta dele tem que admitir que, na sua ausência, o potencial de conflitos e instabilidades de nosso arranjo social e político seria muito maior.

O outro conjunto de transformações do eleitorado tem a ver com duas mudanças concomitantes, no perfil etário e na escolaridade. Nossos eleitores envelheceram e o peso dos segmentos com mais tempo de escola aumentou.

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 1988, 57% da população com 16 anos ou mais tinha, no máximo, o antigo curso primário, enquanto a parcela com acesso ao atual segundo grau ou mais representava 21%. Arredondando: havia quase três vezes mais pessoas analfabetas ou com escolaridade muito baixa do que indivíduos que conseguiram chegar ao segundo grau ou ao ensino superior. A Pnad de 2008 mostrou a mudança: no primeiro grupo, fomos de 57% para 32%; no segundo, de 21% para 43%. A pequena minoria de pessoas com escolaridade média e alta virou a parcela de maior peso no eleitorado.

Na estrutura etária, mudanças menos espetaculares, mas igualmente relevantes em suas consequências políticas. Nas eleições de 1989, 43% dos eleitores tinham até 30 anos e os com mais de 40 representavam 35%, confirmando o padrão do “país de jovens”. Hoje, os primeiros caíram para 34% e os eleitores mais maduros passaram a ser quase a metade.

Juventude quer dizer pouca experiência eleitoral e era isso que caracterizava nosso eleitorado em 1989. A baixa escolaridade tende a se traduzir em maior dificuldade para adquirir e processar informações, o que era a regra para a grande maioria das pessoas que votaram então.

Somos diferentes agora. Nas eleições de 2010, serão majoritários os segmentos com mais escolaridade e mais velhos, portanto, mais experientes na tomada de decisões eleitorais. Uma parcela imensa entrou na vida política sob a égide de Lula e só a percebe com ele. Na hora de atrair os eleitores no ano que vem, vai errar feio quem achar que continuamos iguais ao que fomos há vinte anos.
18/11/2009

Os temas de 2010

Talvez sejamos mais capazes hoje de prever o que vai ocorrer no ano que vem. Só não devemos esquecer as lições de nossa história. Curta, ela é. Se a ignorarmos, fica menor ainda

A uma distância como esta em que estamos das próximas eleições, uma das perguntas mais frequentes é sobre seu conteúdo, sobre que assuntos ou temas deverão ser debatidos com destaque maior. Saúde? Emprego? Segurança? Meio ambiente?

Especialistas de todos os tipos são ouvidos e costumam reagir em função de suas áreas de concentração. Médicos e sanitaristas puxam a brasa para a saúde pública, onde as pesquisas mostram como estão os problemas que mais afligem a população. Quem entende de segurança sabe que, em muitas regiões do país, ela é a prioridade para a maioria dos eleitores. Economistas, empresários e sindicalistas tendem a convergir na opinião de que o tema do desenvolvimento deveria ser central. Não é preciso ser ecologista para imaginar que as questões ambientais serão mais debatidas que no passado.

Considerando que os problemas enfrentados pela população são conhecidos e que sabemos como ela os hierarquiza, não deveria ser difícil responder à pergunta. Afinal, eles não são muitos e nem as opções para equacioná-los, ilimitadas.

Nada mais ilusório, no entanto. Às vezes, algo que, um ano antes, parece um tema óbvio, mal entra na pauta da eleição, que é inversamente dominada por um assunto que nem imaginávamos que teria relevância. Quem antecipa respostas pode errar o alvo por muito. As últimas eleições são um bom exemplo disso. Nelas, as duas coisas aconteceram.

Na verdade, elas nos mostram mais que isso. Seus antecedentes nos ensinam a cautela que devemos ter quando achamos que sabemos tudo de um processo tão dinâmico quanto uma eleição presidencial. O panorama que tínhamos em novembro de 2005 não se confirmou em quase nada e, aos poucos, os fatos se encarregaram de desmentir o que parecia provável.

Um ano antes, Lula estava em segundo lugar nas pesquisas, lideradas, com certa folga, por Serra. Nos primeiros dias de dezembro, de acordo com o Datafolha, o então prefeito de São Paulo tinha 36% e Lula 29%. Em todas as pesquisas que foram feitas de outubro ao fim do ano, o quadro era parecido. No Planalto, muita gente achava que Lula nem deveria concorrer, deixando que o PT indicasse outro nome e assumindo o papel de magistrado na eleição.

O terceiro lugar era de Garotinho, sendo Rigotto o outro nome cogitado do PMDB. Cristovam Buarque era apenas uma hipótese para o PDT, pois tinha acabado de chegar lá. No principal cenário apresentado aos entrevistados nas pesquisas, certo mesmo acabou sendo o nome de Heloísa Helena.

Quanto ao conteúdo, havia uma convicção: a eleição seria dominada pelo tema da ética e da luta contra a corrupção. Depois de meses às voltas com o mensalão, todo mundo apostava que Lula não teria como fugir dele e que nenhum de seus adversários perderia a chance de atacá-lo onde mais sua imagem sangrava. Não era por outra razão que alguns dos amigos do presidente queriam poupá-lo.

Pois bem, veio a eleição e uma das coisas que menos se ouviu foi qualquer cobrança incisiva nesse plano. Lula atravessou quase incólume o período mais crítico (durante a propaganda eleitoral) e, se não fosse o assunto “dossiê”, assim permaneceria. Talvez influenciadas por uma leitura simplista do aforismo “quem bate, perde”, as oposições se proibiram de tocar no assunto em torno do qual parecia que cerrariam fileira.

Com isso, a campanha de Lula pôde se dar ao luxo de trazer para o primeiro plano um tema onde ninguém teria colocado suas fichas: as privatizações. Nada melhor que combater um fantasma que você próprio inventa, como aconteceu no segundo turno, em que Lula nadou de braçada e Alckmin cambaleou sem conseguir responder aos ataques.

Talvez tenham sido eleições atípicas e a diferença entre o que se imaginava um ano antes e o que aconteceu nas urnas tenha sido especialmente relevante. Talvez sejamos mais capazes hoje de prever o que vai ocorrer no ano que vem. Só não devemos esquecer as lições de nossa história. Curta, ela é. Se a ignorarmos, fica menor ainda.
15/11/2009

Dois apagões

As pessoas cobrarão de Lula a vulnerabilidade de nosso sistema elétrico? Lula e Dilma dariam graças aos céus se seu problema para 2010 fosse esse

Depois do apagão da terça feira, passou a ser um esporte nacional especular a respeito de suas consequências nas eleições do ano que vem. Nada mais natural, para um país que tem dedicado atenção até excessiva a elas, considerando a distância em que ainda estão. Se tudo é olhado sob o prisma eleitoral, porque não fazê-lo em relação a algo que atingiu tanta gente?

Costumam ser duas as maneiras de discutir as possíveis repercussões do apagão. Uma é tratando-o como o “apagão do Lula” para poder compará-lo ao “apagão do Fernando Henrique”. Outra é procurando avaliar os efeitos que poderia ter na imagem de Dilma, uma candidata para quem a ideia de competência, posta em dúvida pelo episódio, é essencial.

Quem anda pelo primeiro caminho parece não saber ou ter se esquecido do que aconteceu em 2001. Certamente existem pessoas que apenas ignoram o que se passou no país naquela altura. Afinal, já lá vão oito anos e muitos dos adultos de hoje mal tinham saído da infância então.

Fora esses, a confusão entre os “dois apagões” não faz sentido. A menos que venha de uma surpreendente falta de memória ou resultar de opção política. Nesse caso, dos que confundem porque querem, porque lhes é conveniente. O que não tem nada de mal.

Para entender 2001, é preciso lembrar de 1999, pois foi lá que o problema nasceu. Não a crise energética, mas a crise de imagem de FHC e de seu governo. Foi na hora em que o Real quase virou água que Fernando Henrique começou a viver seu carma.

No imaginário a respeito da moeda e de seu “inventor” (pois foi assim que o povo foi apresentado ao seu futuro presidente), o Real era fruto da mente brilhante de um grupo de técnicos, mais inteligentes que Colombo com seu ovo. O que ninguém, nunca, tinha conseguido fazer, eles conseguiram, manipulando meia dúzia de fórmulas mágicas. A inflação acabou a golpes de genialidade.

Na hora em que o Real desabou, a casa caiu. A crise cambial de 1999 levou tudo de roldão, incluindo o esteio da imagem presidencial.

Foi esse o governo que comunicou à população, no início de 2001, que íamos ficar sem energia elétrica, sabe-se lá em que intensidade, sabe-se lá por quanto tempo. O certo é que todo mundo teria que economizar energia e rezar para que chovesse. Na televisão, o debate era sobre o que ia acontecer com os hospitais, os sinais de trânsito, os elevadores dos prédios, nas várias horas em que, talvez, ficássemos, diariamente, sem luz. É isso que recebeu o nome de “apagão”.

Imagem de presidente algum resistiria bem a algo assim e a de Fernando Henrique não resistiu. Ainda mais por estar debilitada pela perda de sua principal sustentação.

Alguém vê alguma coisa parecida no que aconteceu terça feira? Que raios (pedindo licença para usar a palavra) o “apagão do Lula” tem disso?

Note-se que o fundamento da imagem do atual presidente não está em noções como excelência técnica ou capacidade gerencial. Seus muitos admiradores o veem como alguém que sabe escolher corretamente prioridades, que manda fazer o que deve ser feito, sem que, para isso, precise ter conhecimento acadêmico. Lula é, para a maioria do país, um bom presidente porque age com bom senso e sensibilidade.

E o governo? Em muitas coisas, naquelas em que a marca do presidente é visível, como nos programas sociais, é um bom governo. Em algumas, tem sorte, o que não é igual a mérito. Em outras, é apenas igual aos anteriores e parecido aos que as pessoas conhecem nos estados e nos municípios. O próprio Lula, em que pese o fascínio que tem pela sua obra, deve saber que as notas que recebe em muitas políticas são apenas medianas.

As pessoas cobrarão de Lula a vulnerabilidade de nosso sistema elétrico? Vão achar, daqui a um ano, que Dilma é má candidata por ter havido o apagão da terça?

Lula e Dilma dariam graças aos céus se seu problema para 2010 fosse esse. Alguém supõe que um apagão é mais grave, para os eleitores, que os imensos problemas da saúde pública, da segurança, do emprego de qualidade?

Na hora do voto, ou as pessoas acreditam na palavra de Lula e a escolhem para continuar seu trabalho, ou não. Para essa decisão, o apagão é irrelevante.
11/11/2009

Lula e FHC

O bonito da democracia e da liberdade de imprensa é você poder ler essas coisas nos mesmos dias em que outras, bem diferentes, são publicadas.

Nos últimos dias, os titãs voltaram a duelar. Fernando Henrique e Lula se enfrentaram de novo na arena verbal, cada um buscando modos mais criativos para falar do outro. Seus fiéis escudeiros, na política e na mídia, entraram logo a seguir em campo, uns para defender o chefe, outros para ir mais fundo no ataque ao outro.

O ex-presidente deu a largada falando de “subperonismo”. Não era, a rigor, um termo central no já famoso texto que publicou, intitulado Para onde vamos?, cujo objetivo era analisar a situação do país e avaliar o que o futuro nos reserva. Nele, embora tenha ficado como a mais memorável, a palavra havia sido usada apenas uma vez.

Na verdade, ela foi empregada com intuito apenas depreciativo. Dizer que o lulismo é um subperonismo implica em negar ao nosso presidente sequer a capacidade de nomear alguma coisa. No máximo, Lula seria a encarnação diminuída de um fenômeno pelo qual os argentinos passaram há quase 60 anos. As diferenças entre os dois países, a que existe entre os anos 1950 e agora, as particularidades de Lula e Perón, não contam. O que interessa é a oportunidade de alfinetar o presidente.

O tal subperonismo teria como fundamento o tripé “partidos fracos, sindicatos fortes e fundos de pensão convergindo com os interesses do partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados”. O conceito tem certa semelhança com outro sugerido pelo Fernando Henrique sociólogo dos anos 1970, o de “anéis burocráticos”, instâncias de articulação clientelista entre a tecnocracia e o empresariado que vicejaram no populismo e continuaram no período militar. Na nova encarnação, teriam ganhado a companhia do petismo e do assistencialismo de massa.

Encurtando: para Fernando Henrique, Lula dá certo porque obteve os “aplausos do povo”, mas submete o país a um poder burocrático-corporativo com “o DNA do autoritarismo popular” (seja lá o que isso for).

A resposta não demorou, embora o presidente, para variar, estivesse no exterior, ocupado com coisas mais importantes (tinha ido ao Reino Unido ganhar um novo prêmio). Ele e o governo já haviam sido defendidos no Congresso durante a semana, mas faltava ouvi-lo.

Reagindo ao noticiário sobre a decisão tucana de recrutar e treinar “multiplicadores” para atuar no processo eleitoral do ano que vem no Nordeste, Lula foi logo batendo abaixo da medalhinha, como se diz no futebol: “É prática de Hitler”. Como chegou à conclusão, não se sabe.

Quando lhe pediram a opinião sobre o artigo de FHC, foi cruel: “Um intelectual ficar assistindo um a operário que tem o quarto ano primário ganhar tudo que ele imaginava que pudesse ganhar e não ganhou por incompetência é muito difícil”. Bateu, levou.

“Subperonista”, “autoritário”, “nazista”, “incompetente”, “invejoso”, é nesse nível que dialogam nossas lideranças mais respeitadas. Tirem as crianças da sala.

O bonito da democracia e da liberdade de imprensa é você poder ler essas coisas nos mesmos dias em que outras, bem diferentes, são publicadas. Algumas que fazem pensar sobre essas trocas de amabilidades e sobre o que de verdadeiramente importante está acontecendo no Brasil.

Analisando o peso da cesta básica no salário mínimo em um período de 15 anos, de 1995 ao presente, o Dieese descobriu duas coisas. De um lado, que ele nunca foi menor que atualmente, quando a compra da cesta compromete apenas 45% da renda líquida do trabalhador que tem esse nível de remuneração. Mais da metade do que ganham essas pessoas pode, portanto, ser destinado a outras despesas: material de construção, bens de consumo durável, vestuário, medicamentos. Isso decorre da política de reajustes do mínimo acima da inflação e se intensificou com a desaceleração dos preços dos produtos agrícolas nos dois últimos anos.

A segunda constatação é também interessante. A tendência de queda na participação da cesta básica nos salários mais baixos vem desde o governo tucano, sem grandes oscilações nos 15 anos considerados. Entre 1995 e o primeiro ano do governo Lula, em 2003, a cesta básica foi de 89% para 64% do mínimo. De lá, veio declinando até chegar aos 45% de hoje. Caiu 25 pontos no período FHC e 21% no de Lula.

Falem o que falarem, inventem os nomes que quiserem, há muita coisa parecida no que fazem Lula e os tucanos quando estão no governo. Ainda bem.
08/11/2009

As próximas pesquisas

No balanço do ano, quem deve ficar melhor é Dilma, pois será a última a aparecer na televisão. O normal é que suba algo em torno de 5%. Talvez mais. Ninguém sabe que efeito isso teria no lado tucano. Pode ser a gota d’água que vai definir quem fica e quem sai da disputa particular que Serra e Aécio travam

Do jeito como estamos indo para as eleições presidenciais de 2010, não causa mais espanto a divulgação simultânea de cinco ou seis pesquisas a cada mês. São tantas e tão frequentes que, volta e meia, o noticiário é inundado por elas. Mesmo quando nada ou quase nada trazem de novidade.

Daqui a pouco, teremos outra fornada e tudo indica que vão mostrar que o quadro sucessório permanece inalterado. Nas últimas semanas, nada parece ter acontecido com as intenções de voto. Ninguém subiu, ninguém caiu.

Olhando bem as pesquisas, faz tempo que é isso que dizem. A vantagem de Serra, o segundo lugar disputado por Ciro e Dilma, a boa performance de Heloísa Helena, Marina com seus 5% a 6 %, o desempenho de Aécio variando em função dos adversários… O quadro é sempre esse.

Quando muda, é por razões perfeitamente previsíveis. Desde o começo do ano, todas as alterações mais relevantes decorreram de algo com que já devíamos estar acostumados, as ondas de propaganda partidária que atingem o eleitorado uma vez por semestre. Elas decorrem da legislação relativa aos partidos políticos e existem desde os anos 1970, mas passaram a ter sua importância exponenciada a partir da segunda metade dos anos 1990.

Foi quando uma inovação jurídica mudou a comunicação política no Brasil, criando as “inserções”, mais conhecidas, na linguagem publicitária, por comerciais. Disseminadas pela programação das emissoras de televisão e rádio, essas inserções de 1 minuto ou 30 segundos atingem o universo dos eleitores, mesmo aqueles que pouco ou nenhum interesse têm por questões políticas e que, por isso, são pouco afetados pelas outras mídias.

Em todas as eleições presidenciais subsequentes, elas provocaram efeitos notáveis, especialmente no primeiro semestre de 2002. Sem reeleição e com a aproximação do processo eleitoral, as pessoas prestaram mais atenção nelas que de costume. Isso não havia acontecido em 1998 e não se repetiria em 2006.

Este ano, temos uma coisa parecida, que é a ausência de reeleição, mas com uma diferença: as eleições ainda estão longe. Apesar disso, é tão forte o impacto dessas ondas (sem esquecer que delas fazem parte os programas partidários semestrais), que foram a causa do que de mais importante aconteceu com as intenções de voto desde janeiro.

Os dois fenômenos de crescimento que tivemos até setembro se explicam assim: primeiro Dilma, depois Ciro, turbinados pelas inserções e o programa de seus partidos, subiram, para voltar a seu patamar anterior quando elas deixaram de fazer efeito. Nenhum dos dois se sustentou.

Não deixa de ser engraçado constatar que a movimentação frenética dos candidatos e seus mentores país afora, voando milhares de quilômetros, comparecendo a centenas de inaugurações, participando de incontáveis reuniões, gastando tanto esforço e tanto dinheiro, redundam em quase nada em termos de intenção de voto. Enquanto isso, uns minutinhos de televisão fazem toda a diferença.

De setembro para cá, não houve janela parecida para qualquer candidato. Assim, devemos ter poucas mudanças na próxima leva de pesquisas. Em compensação, muita coisa vai acontecer com as intenções de voto de novembro a dezembro. PT e PSDB voltam às telas já em clima inteiramente eleitoral, com suas estrelas principais querendo encantar os telespectadores e angariar votos por meio de inserções e programas. Dilma, Serra e Aécio vêm dispostos a crescer.

No balanço do ano, quem deve ficar melhor é Dilma, pois será a última a aparecer na televisão. O normal é que suba algo em torno de 5%. Talvez mais. Ninguém sabe que efeito isso teria no lado tucano. Pode ser a gota d’água que vai definir quem fica e quem sai da disputa particular que Serra e Aécio travam.
04/11/2009

As eleições estão chegando

Dilma contra Aécio é uma eleição bem diferente da que Lula pensou. Com a bandeira do futuro nas mãos, ele poderia dar muito mais trabalho que Lula achava que ia ter. Se, nas eleições de 2010, a discussão for sobre nosso futuro e não sobre o passado, elas ganham muito em importância.

Para quem gosta daqueles painéis que marcam o tempo que falta até um evento, chegamos a uma distância das próximas eleições presidenciais que já pode ser calculada em dias. De hoje até elas, mesmo se só se resolverem no segundo turno, falta menos de um ano. O tempo, agora, parece que corre mais depressa.

Toda eleição é importante para um país e algumas são mais. Mesmo nos que estão acostumados com elas, existem as que têm significado maior, pois provocam sentimentos que influenciam o modo como as pessoas se veem e veem a nação que são, com efeitos que atravessam os anos. Em 2008, nos Estados Unidos, por exemplo, a eleição de Barack Obama foi uma dessas. Depois de sua vitória, o país mudou.

No Brasil, com a história que temos, o simples fato de fazermos a sexta eleição presidencial democrática em sequência é motivo para soltar foguetes. Em 509 anos, isso nunca tinha acontecido. Nosso recorde até o fim do século 20 (já ultrapassado na reeleição de Lula em 2006) era de apenas quatro, de Dutra a Jânio. Parece que agora, finalmente, engrenamos na democracia.

Do modo como o jogo político está sendo jogado, já sabemos qual será um dos polos da decisão ano quem vem. Quando escolheu Dilma para ser sua candidata, Lula apostou na continuidade, entendendo que as pessoas estão, majoritariamente, satisfeitas com o que têm. Guiado pelas pesquisas de opinião, convenceu-se de que o mínimo de mudanças tinha máxima probabilidade de sucesso, respaldado pelos quase 80% de aprovação a seu trabalho.

Pelo que se pode deduzir, o presidente sempre calculou que José Serra seria o adversário de quem ele indicasse. Talvez por conhecer seu estilo, Lula imaginou que ele tentaria suplantar qualquer outro nome que surgisse nas oposições. Nessa avaliação, deve ter se lembrado que, para Serra, essa é, muito provavelmente, a última chance. Na seguinte, em 2014, ele já terá 72 anos, o que não inviabiliza, mas dificulta uma candidatura.

Se Serra era o adversário de Dilma, o cenário da eleição de 2010 estava definido: de um lado, uma candidatura cuja promessa fundamental seria deixar tudo como está (ainda que repetisse o mantra de “melhorar o que precisa ser melhorado”); do outro, uma que pudesse ser identificada com Fernando Henrique, cujo governo, ainda segundo as pesquisas, tinha terminado com imagem ruim e só piorara de lá para cá.

É possível que Lula tenha escolhido Dilma por estar convicto de que a eleição seria contra Serra. Foi pensando que o governador não conseguiria se desvencilhar de suas ligações com o passado que ele fez a opção por alguém que representa o presente. Em vez de Dilma contra Serra, o eleitor seria levado a uma escolha entre ele e seu antecessor. Seria a forra de Lula contra quem o derrotou duas vezes, quando os eleitores comparariam o presente que aprovam com o passado de que não gostam.

E o futuro, a possibilidade de pensar o que podemos ser e não o que fomos nos últimos 16 anos? Na candidatura Dilma, a ideia é tabu, pois ela está presa a uma defesa intransigente do presidente Lula. Discutir o futuro, salvo se para propor ajustes cosméticos, é reconhecer que algo deixou de ser feito ou foi mal feito.

Será que Serra consegue escapar do papel escalado por Lula? É possível, mas não é fácil. Afinal, ele esteve, durante oito anos, no governo FHC, no qual, aliás, construiu a parte de sua biografia que mais interessa aos eleitores, quando foi ministro da Saúde. Pode, até, não falar diretamente de Fernando Henrique, mas o espectro do ex-presidente vai sempre rondar sua candidatura (nas pesquisas atuais, quase 80% dos entrevistados dizem que Serra é “o candidato de Fernando Henrique”).

Mas e se o nome do PSDB for Aécio? O que aconteceria com a estratégia montada por Lula há tanto tempo? Como Dilma já está sacramentada, não é mais possível inventar outro discurso, outras propostas. Ela vem para defender o presente.

Dilma contra Aécio é uma eleição bem diferente da que Lula pensou. Com a bandeira do futuro nas mãos, ele poderia dar muito mais trabalho que Lula achava que ia ter. Se, nas eleições de 2010, a discussão for sobre nosso futuro e não sobre o passado, elas ganham muito em importância.